domingo, 22 de setembro de 2013

Corações contra a parede

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Uma tarde saindo de casa. O tempo arde e já é tarde.

Dobro a esquina, gritaria na rua, cenas de bairro: uma senhora no ponto e uma algazarra do outro lado da rua. Cheguei perto.

“ Aí não vai pro centro não, só vai pro bairro” - gritava o senhor esforçado.

Percebi que a senhorinha, no ponto, era cega. “Tem que pegar em outro ponto”, berrava a moça bem-intencionada.

Pensei comigo: que mania do povo achar que cego é surdo!

Perguntei o que estava acontecendo aos dois. Explicaram o caso, sem gritar muito, por sorte. Falei que ia levar a senhora até o ponto. A moça perguntou: “você tá indo pra lá”?

Agora eu tô.

Atravessei a rua, expliquei baixinho pra doninha que ela estava no ponto errado se ela queria chegar ao centro. Ofereci pra levar ela ao ponto. Dei o braço, agradeceu. Fomos.

Meu coração um pouco preocupado, um pouco satisfeito. Pelo menos levo a senhora no ponto e espero o ônibus. Pelo menos, um artefato.

A senhora contou os males de sua vida. Contou que sozinha e sentida, procurava um lugar pra morar por ali. Se eu não sabia de qualquer coisa. Sede de qualquer vazão.

A tristeza é uma sombra que espanca o baque do coração. A tristeza é o senão, que invade a tarde. A resposta é um vão, que não encontra beleza no reflexo. Mas a alegria ainda batia e rebatia, eu fazia o que podia. Eu vivia a lívida ilusão.

Morava sozinha na pensão. Tantos dinheiros por dia. Conta rápida, pensão batida. Sem dinheiro, dizia, não conseguia.

Como não revelar nos passos o que não se traduzia? Senhorinha, no meio do bairro, sozinha... como lidar com essa tristeza antecipada toda de tão todo e toda minha? Como explicar pra essa cidade que se perece quando a míngua deixa soltos esses pedaços, essas pessoinhas...?

“Eu tive um problema na perna”... ela usava mesmo uma bengala. “Não consegui trabalhar no mês passado. Minha pensão só deu pro aluguel, lá eles nem dão comida”...

Já sabia o que viria... Mundo devasso, importuno, imundo – e mil adjetivos que te marcam sem te escarnecer -, porque esse cálice da partilha? Esse cardo acochambrado, essa mesquinharia? Por que esse sim? Por que tantos nãos sem rebeldia?

Dei sorte. O ônibus chegou na hora em que chegamos no ponto. Mas a vida não é justa, tive que escutar de pronto: “O senhor não teria uma ajuda...”

Nada dói mais. A pouca caridade não isola. Em que mundo estamos, que jardim plantamos? O coração saiu pela face e ninguém no ônibus entendeu o fato. Espantos estancados. Alheios, assustados demais ao sensível.

O que aquela senhorinha fazia ali sozinha, perdida, no meio de um bairro desconhecido? Que mundo horrível! Por que aquela senhorinha ali... pedia? Quem a esqueceu? O que ela esquecia?

Não deu tempo nem de falar do que não tinha. Foi-se o ônibus, fiquei a míngua. Pensando se essa tristeza é só minha. Se é só meu coração que falha.

Se só eu. Se só lágrima. Se nada...
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