segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Um texto de Rubem Alves


AS RAZÕES DO AMOR
.
.
"Os místicos e os apaixonados concordam em que o amor não tem razões. Angelus Silésius, místico medieval, disse que ele é como a rosa : "A rosa não tem"porquês". Ela floresce porque floresce." Drummond repetiu a mesma coisa no seu poema As Sem-Razões do Amor. É possível que ele tenha se inspirado nestes versos mesmo sem nunca os ter lido, pois as coisas do amor circulam com o vento.

"Eu te amo porque te amo..." - sem razões... "Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo." Meu amor independe do que me fazes. Não cresce do que me dás. Se fosse assim ele flutuaria ao sabor dos teus gestos. Teria razões e explicações. Se um dia teus
gestos de amante me faltassem, ele morreria como a flor arrancada da terra. "Amor é estado de graça e com amor não se paga." Nada mais falso do que o ditado popular que afirma que "amor com amor se paga". O amor não é regido pela lógica das trocas comerciais. Nada te devo. Nada me deves. Como a rosa que floresce porque floresce, eu te amo porque te amo.

"Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a
regulamentos vários... Amor não se troca... Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo..." Drummond tinha de estar apaixonado ao escrever estes versos. Só os apaixonados acreditam que o amor seja assim, tão sem razões. Mas eu, talvez por não estar apaixonado (o que é uma pena...), suspeito que o coração tenha regulamentos e dicionários, e Pascal me apoiaria, pois foi ele quem disse que "o coração tem razões que a própria razão desconhece". Não é que
faltem razões ao coração, mas que suas razões estão escritas numa língua que desconhecemos.
Destas razões escritas em língua estranha o próprio Drummond tinha conhecimento, e se perguntava: "Como decifrar pictogramas de há 10 mil anos se nem sei decifrar minha escrita interior? A verdade essencial é o desconhecido que me habita e a cada amanhecer me dá um soco." O amor será isto: um soco que o desconhecido me dá?

Ao apaixonado a decifração desta língua está proibida, pois se ele a entender, o amor se irá. Como na história de Barba Azul: se a porta proibida for aberta, a felicidade estará perdida. Foi assim que o paraíso se perdeu: quando o amor - frágil bolha de sabão - não contente com sua felicidade inconsciente, se deixou morder pelo desejo de saber. O amor não sabia que sua felicidade só pode existir na ignorância das suas razões. Kierkegaard comentava o absurdo de se pedir aos amantes explicações para o seu amor. A esta pergunta eles só possuem uma resposta: o silêncio. Mas que se lhes peça simplesmente falar sobre o seu amor - sem explicar. E eles falarão por dias, sem parar... Mas - eu já disse - não estou apaixonado. Olho para o amor com olhos de suspeita, curiosos. Quero decifrar sua língua desconhecida. Procuro, ao contrário do Drummond, as cem razões do amor...

Vou a Santo Agostinho, em busca de sua sabedoria. Releio as Confissões, texto de um velho que meditava sobre o amor sem estar apaixonado. Possivelmente aí se encontre a análise mais penetrante das razões do amor jamais escrita. E me defronto com a pergunta que nenhum apaixonado poderia jamais fazer: "Que é que eu amo quando amo o meu Deus?" Imaginem que um apaixonado fizesse essa pergunta à sua amada: "Que é que eu amo quando te amo?" Seria, talvez, o fim de uma estória de amor. Pois esta pergunta revela um segredo que nenhum amante pode suportar: que ao amar a amada o amante está amando uma outra coisa que não é ela. Nas
palavras de Hermann Hesse, "o que amamos é sempre um símbolo". Daí, conclui ele, a impossibilidade de fixar o seu amor em qualquer coisa sobre a terra..."

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Resposta ao meu eterno e querido professor

Esse texto é um email em resposta ao texto do meu querido professor Eduardo Machado, que pode ser lido aqui: http://eduardomachadobh.blogspot.com.br/2012/08/fe-particula-de-deus.html


Sabe, Eduardo, lendo e relendo sua crônica e, assim, me emocionando mais e mais, queria te dizer o seguinte:

Hoje em dia cheguei a um entendimento de Deus, do Mistério, de todas as coisas, que eu vejo - sensível - no seu texto. 

Eu pratico o Budismo há algum tempo, mas sempre tive o entendimento de que tudo é a mesma coisa no fim, divergindo nos meios. Cresci num meio bom, terreno fértil e por isso colho frutos no Budismo: a mesma procura, a mesma entrega, a mesma compaixão. Mudou-se apenas o meio, o fim é o Absoluto, ou como se queira chamar. Não creio que Deus tenha dessas preferências.

Pois bem, meu entendimento atual é de que Deus é... o próximo. Seu espírito é a compaixão. 

Colando Deus na Iluminação, Deus é o momento: ele dá o aqui e agora pra fazer o que quiser. Você pode invocar a presença Dele. Simplesmente. Nos mais corriqueiros atos do dia a dia, como no caminho da padaria que você descreve no texto. Ali, no sorriso da vizinha correspondido, numa gentileza na fila do caixa, num sorriso pra balconista na hora do troco. Ou em atos maiores. Ou em quaisquer outras oportunidades de se fazer uma coisa boa, visando o bem, para todos, sem exceção e com plena entrega. 

Uma tradição bonita e um bom exemplo: por tradição, no Budismo Tibetano, a cada ação positiva realizada, seja um gesto, uma caridade, um trabalho bem feito, você dedica os méritos gerados naquela ação ao bem-estar de todos os seres. 

Acredito imensamente nessa interdependência entre todas as coisas. Porque, pra completar a tríade, os filhos somos nós. Nossa família, a humanidade, com muitos  primos e parentes distantes. Porque nossos irmãos estão próximos. Um vivendo para o outro (o um e o todo, o todo e o um), eis a presença de Deus.

Assim está a minha fé. E a fé, aquele salto no escuro: mas eu sei que Ele está lá.

Um grande abraço,

Sérgio Mitre

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Torcida única: falência social

Insisto nesse assunto, pois é um problema maior e muito mais sério. O fato de ninguém se indignar, de não haver protestos mais veementes, só mostra que nós aceitamos sermos tratados assim, como animais. Eu não aceito!

Quanto mais transformarem por gestos e/ou atitudes coisas normais - como duas torcidas adversárias irem ao mesmo jogo de futebol - como absurdas e incontroláveis, pior fica a nossa sociedade. Sinaliza para todos, cidadãos de bem e tb para os maus-elementos, que o normal é a violência, qdo esta deveria ser a exceção; que o normal é a guerra entre torcidas, qdo deveria ser a paz e a boa convivência (a guerra e a violência deveriam - e são, na minha concepção - fatos isolados, exceções, nunca a regra).

É disso q se trata: a violência foi transformada em regra e oficializada - e, pq não?, legitimada - pelos órgãos de segurança

Esse é o péssimo exemplo que o poder público dá a todos nós. É como ele enxerga a nossa sociedade, é como o poder público nos enxerga e demonstra o q ele espera de nós, enquanto cidadãos: irracionalidade, bestialidade, incapacidade de convivência.

A proibição assume essa situação e ainda sinaliza q a única maneira de controlar essa bestial e incontrolável população de BH é proibindo, colocando de castigo, nos tratando igual à crianças (mimadas).

Não me interessa muito o q o poder público tem ou teria q fazer. O que me indigna de verdade é q o PODER PÚBLICO NAO PODE SE ISENTAR DE FAZER O QUE LHE É DEVIDO, como garantir a segurança da população - além, é claro, de governar para q nossa sociedade melhore e progrida. Essa atitude de torcida única nos diz q se estamos mal, nem adianta nada, só vai piorar, então não há remédio: atitudes, só extremas, autoritárias e desprezando nossa capacidade enquanto seres humanos.

"Nós não somos bichos, nós não somos animais/Nós não somos bestas selvagens" - Gonzaguinha

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O Coelho e o crítico inglês


Texto escrito devido à seguinte crítica, propagada pelas redes sociais: http://www.cartacapital.com.br/cultura/critico-britanico-detona-paulo-coelho-apos-provocacao-a-ulysses-de-james-joyce/

Um problema muito sério, um verdadeiro drama psicológico-patriótico do nosso povo é esse complexo de vira-lata que assola a todos nós, brasileiros. Quem é o crítico britânico? Qual a importância dele para a literatura mundial? Por que a opinião dele é levada e consideração? Eu mesmo respondo: só porque detona um escritor brasileiro. Ele ganha muita credibilidade...


Paulo Coelho é um escritor reconhecido internacionalmente, entre outras instituições, a Academia de Letras da França (onde ganhou até prêmio cobiçado por diversos autores em todo o mundo). Um best-seller no Brasil, um país onde a média de leitura é de 1 livro por ano e o hábito de ler, pouco praticado. Autor de muitos livros, todos muito lidos.


Li poucos livros dele e só os mais antigos. Lembro-me de ter lido "O Alquimista" na adolescência e de ter gostado imensamente. Foi um livro de leitura fácil, história simples e envolvente e que, se não é uma obra prima da literatura mundial, tal como Joyce ou Guimarães Rosa, foi um livro e um autor que contribuíram para que eu tomasse gosto pela leitura e pela literatura - e hoje sou um leitor voraz e me arrisco na arte da poesia.

Quem diz que o Paulo Coelho nasceu pra pano de chão, não deve saber bem a diferença do que é um pano de prato. Quantos livros esse povo leu para formatar essa comparação? E quantos críticos e críticas literárias eles conhecem para corroborar assim, de pronto, o primeiro crítico que ganhou destaque detonando um escritor internacionalmente famoso?

Paulo Coelho tem razão em dizer que ao desfazerem dele desfazem também de seus leitores. É verdade, com um detalhe: ele tem milhares de leitores. Despreza-se gente demais, não?


Quanto ao Ulisses, do Joyce, acho chatíssimo e nunca consegui ler. Muito difícil pra mim ainda. Por isso, concordo com a crítica do Coelho em parte: é praticamente um tributo ao estilo, consagrado pelo próprio Joyce. Mas isso é só minha opinião, tal qual à do Paulo Coelho. Frente à genialidade da obra do Joyce, opiniões sobre esse ou aquele aspecto de sua obra ou livro seu, significam muito pouco ou quase nada. Paulo Coelho sabe disso, só emitiu um ponto de vista.

Há quem critique o Joyce, ainda, em outro aspecto da sua obra (e da sua grandeza): depois de consagrado o estilo, todo romancista do século XX foi assombrado por Ulisses, todos foram comparados à Joyce, todos se preocuparam e muitos se limitaram só para "parecer" Joyce...

Criticam muito o Coelho na medida inversa à qual elogiam o Joyce: dizem que um é simplório e, o outro, sofisticado. Na minha opinião, não é só porque é de leitura agradável e de temas mais superficiais (embora eu não considere assim) que automaticamente se torna simplório - olha aí o Dan Brown enchendo as burras de dinheiro só porque criou um estilo fácil e dinâmico, que se repete em todos os seus livros. E isso não é demérito nenhum, pelo contrário: cada escritor com sua importância, seu lugar e relevância na história e no universo da literatura.

Livros foram feitos para serem lidos, não idolatrados. Pra isso, para que se consiga ler os livros clássicos da literatura, com tudo o que os envolve além do conteúdo, como estilo, autor, momento histórico da obra e todos os et céteras, há que se tomar gosto, preciso é o hábito da leitura, seu deleite. É imperativo ter prazer. O livro não pode ir além do que pode oferecer o leitor, com riscos enormes para o futuro do leitor – ou sua destruição.

Se eu quisesse incentivar uma criança ou um adolescente à prática da leitura, indicaria a eles, principalmente se já dominados pela televisão, onde todas as imagens já lhe são dadas e o pensar é desestimulado, livros de maior simplicidade, tanto temática quanto estilística. Indicaria livros fáceis de ler. Indicaria Paulo Coelho, com seus livros simples, mas nunca simplórios e seus temas menos complexos, mas nunca superficiais.


Desfazer do Paulo Coelho e de sua importância para a literatura brasileira, com os argumentos apresentados, é o mesmo que dizer que só porque tivemos Shakespeare não podemos ter um Bernard Cowell, um escritor inglês, de romances históricos de temas fáceis, livros populares e deliciosos. Ou que, só porque tivemos um Guimarães Rosa, não podemos perceber a importância de um Jorge Amado. Ou só porque tivemos poetas concretistas geniais, eu não pudesse existir, tentando viver com minha poesia simples.

domingo, 15 de julho de 2012

Um texto de Pier Paolo Pasolini

A linguagem do futebol

O futebol é um sistema de signos, ou seja uma linguagem. Tem todas as características fundamentais da linguagem por excelência, o que expomos em seguida como termo de comparação, ou seja a linguagem escrita-falada. De fato, as "palavras" da linguagem do futebol se formam exatamente como as palavras da linguagem escrita-falada. Agora, como se formam estas últimas? Se formam através da "dupla articulação", ou seja através das infinitas combinações dos fonemas que são, em italiano, as vinte e uma letras do alfabeto. Os fonemas, portanto, são as "unidades mínimas" da língua escrita-falada. 

Queremos nos divertir definindo a unidade mínima da língua do futebol? Vejamos: "Um homem que usa os pés para chutar a bola", essa é a unidade mínima: esse "podema" (se queremos continuar nos divertindo). As infinitas possibilidades de combinação dos "podemas" formam as "palavras futebolísticas", e o conjunto das "palavras futebolísticas" forma um discurso, regulado por autênticas normas sintáticas. Os "podemas" são vinte e dois (quase como os fonemas), as "palavras futebolísticas" são potencialmente infinitas, porque infinitas são as possibilidades de combinação do "podemas" (na prática, os passes de bola entre cada jogador); a sintaxe se expressa na "partida", que é um autêntico discurso dramático. 

Os codificadores desta linguagem são os jogadores, nós, nas arquibancadas, somos os intérpretes: assim, possuímos um código comum. Quem não conhece o código do futebol não entende o significado de suas palavras (os passes) nem o sentido de seu discurso (um conjunto de passes).

Não sou nem Roland Barthes nem [o semiólogo Algirdas Julius] Greimas, mas como aficcionado, se quisesse, poderia escrever um ensaio muito mais convincente que esta menção sobre a "língua do futebol". Penso, ademais, que se poderia escrever também um bonito ensaio intitulado "Vladimir Propp aplicado ao futebol", porque, naturalmente, como toda língua, o futebol tem seu instante puramente "instrumental", rigorosa e abstratamente regulado pelo código, e o seu instante "expressivo". 

Com efeito, antes eu disse que toda língua se articula em várias sublínguas, cada uma das quais possui um subcódigo. Pois bem, na língua do futebol se podem fazer também distinções deste tipo: também o futebol possui subcódigos, desde o momento em que, de puramente instrumental, para a converter-se em expressivo.

Pode haver um futebol como linguagem em prosa e um futebol como linguagem fundamentalmente poética. Para explicar-me, aponto - antecipando as conclusões - alguns exemplos: Bulgarelli joga um futebol em prosa: ele é um "prosador realista". Riva joga um futebol de poesia: ele é um "poeta realista". Corso joga um futebol de poesia, mas não é um "poeta realista": é um poeta um pouco maldito, extravagante. Rivera joga um futebol em prosa, mas é uma prosa poética, de Elzevir.

Também Mazzola é um "elzeveriano", que poderia escrever no Corriere della Sera, mas é melhor poeta que Rivera: de vez em quando ele interrompe a prosa e logo inventa dois versos fulgurantes. (N. do blogueiro, Pasolini fala de jogadores da época, é factível que se proponham mentalmente nomes atuais para cada uma das categorias propostas pelo autor.)

Esclareço que entre a prosa e a poesia não fazemos diferença de valor; a minha é uma distinção puramente técnica. Entretanto, vamos nos entender: a literatura italiana, sobretudo a mais recente, é a literatura dos Elzevir: eles são elegantes e extremamente estetizantes, no fundo são quase sempre conservadores e um pouco provincianos... enfim, democrata-cristãos. Entre todas as linguagem que se falam num país, inclusive aqueles com mais gírias, há um terreno comum desse país: sua atualidade histórica. Assim, precisamente por razões de cultura e história, o futebol de alguns povos é fundamentalmente em prosa; prosa realista ou prosa estetizante (este é o caso da Itália), enquanto que o futebol de outros povos é basicamente em poesia. 

Em futebol há momentos que são exclusivamente poéticos: são os momentos do gol. Cada gol é sempre uma invenção, é sempre uma perturbação do código: todo gol é inelutabilidade, fulguração, espanto e irreversibilidade. 

Precisamente como a palavra poética. O melhor goleador de um campeonato é sempre o melhor poeta do ano.

Neste momento é Savoldi. O futebol que expressa mais gols é o futebol mais poético. Também o drible é por si poético (ainda que não se compare com o gol). De fato, o sonho de todo jogador (compartilhado por todo espectador) é arrancar do centro do campo, driblar a todos e marcar o gol. Se, dentro dos limites, se pode imaginar uma coisa sublime, é precisamente esta. Mas isso nunca acontece. É um sonho que vi realizado somente em I due maghi del pallone (Os dois mágicos da bola), o filme de Franco Franchi que, mesmo num nível grosseiro, conseguiu ser perfeitamente onírico. 

Quem são os melhores dribladores do mundo e os melhores goleadores? Os brasileiros. Portanto, seu futebol é um futebol de poesia: de fato, todo ele está baseado no drible e no gol. A troca de passe e a triangulação é um futebol de prosa: com efeito, está baseado na sintaxe, ou seja, no jogo coletivo e organizado: quer dizer, na execução racional do código. Seu único momento poético é o contra-ataque, com a adição do gol (que, como vimos, não pode ser mais poético). Definitivamente, o momento poético do futebol parece ser (como sempre) o momento individualista (drible e gol; o passe inspirado). 

O futebol em prosa é o do chamado sistema (o futebol europeu). Seu esquema é o seguinte: o gol, neste esquema, está atrelado à definição, possível a um "poeta realista" como Riva, mas deve derivar de uma organização de jogo coletivo, baseado numa série de passes geométricos executados segundo as regras do código (se trata de uma perfeição um pouco estetizante e não realista, como nos centroavantes ingleses ou alemães).

O futebol poético é o futebol latinoamericano. Seu esquema é o seguinte: esquema que para ser consumado deve requerer uma capacidade monstruosa de driblar (algo que na Europa é repudiado em nome da "prosa coletiva") e o gol pode ser inventado por qualquer um desde qualquer posição. Se o drible e o gol são os momentos individualistas-poéticos do futebol, é por isso que o futebol brasileiro é um futebol de poesia. Sem fazer diferença de valor, mas em sentido puramente técnico, no México a prosa estetizante italiana foi vencida pela poesia brasileira. 

Artigo do cineasta Pier Paolo Pasolini, publicado no jornal Il Giorno, em 03 de janeiro de 1971. No ano anterior, na final da 9ª Copa Mundial de Futebol, no México, o Brasil havia vencido a Itália por 4 a 1. Esse texto foi incluído na obra Saggi sulla letteratura a sull'arte(Ensaios sobre literatura e arte), publicado em 1999 pela editora italiana Mondadori.

Traduzido pelo blog 
http://diariogauche.blogspot.com.br in http://diariogauche.blogspot.com.br/2010/07/pier-paolo-pasolini-e-poesia-do-futebol.html

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Um texto de Ferreira Gullar


DOR E ARTE


Quando se fala da relação entre a dor e a arte, deve-se distinguir a dor física da dor moral. Na minha opinião - e até onde posso afirmar baseado em experiência própria - a dor física tende a anular as condições psicológicas propícias à geração da obra de arte. Se não é impossível que alguém, atacado de forte dor física, seja levado, por efeito dela, a elaborar um poema, tal ocorrência seria uma exceção. Uma exceção porque a dor física, se de forte intensidade, tem o poder de anular momentaneamente nossa capacidade intelectual, reduzindo-nos ao nosso corpo - o corpo que dói. E quem produz a arte é o corpo que pensa, que inventa, sonha, fantasia.


O filósofo inglês Alfred North Whitehead, autor com Bertrand Russell, de um livro importante para a filosofia do século 20, intitulado "Principia Mathematica - observou que “quando nos damos conta do funcionamento de nossas vísceras, alguma coisa vai mal. O mesmo Whitehead, desenvolvendo esse ponto de vista, já afirmara, noutra ocasião, que o que caracteriza o corpo vivo é a não percepção dos elementos que o constituem, enquanto integrantes desse organismo. Exemplifico; se minha mão toca em minha perna, percebo a mão e a perna. Mas não percebo os contatos que eventualmente ocorram entre os músculos, tendões e ossos que constituem minha mão; sei que esses músculos, ossos e tendões, existem, mas não os percebo; se sinto a existência de qualquer deles - o que em geral se manifesta pela sensação desagradável a que chamamos dor - é que ali a máquina do corpo deu defeito.


Pode ser esclarecedor compararmos, neste caso, o corpo humano com, digamos, um aparelho de televisão. Se em determinado ponto dele, de repente, começam a ocorrer estalos e faíscas, é que algum defeito está interferindo no funcionamento normal do aparelho. Se o aparelho de TV fosse um ser vivo, certamente sentiria dores. Talvez se possa então afirmar que a dor é o sintoma do mau funcionamento do organismo vivo - o sinal indicativo de que alguma coisa vai mal naquele ponto que dói.


Ou noutro ponto, como parece ocorrer com certas dores de cabeça que são reflexo do mau funcionamento do estômago, por exemplo. Mas, qualquer que seja o caso, a dor física tem a capacidade de tornar o nosso corpo anormalmente presente em nossa consciência, até mesmo de ocupá-la a tal ponto que mal conseguimos pensar em outra coisa. Nessas condições, é impossível criar uma obra de arte. Logo, se alguma dor efetivamente provoca o surgimento da obra de arte, terá que ser a dor moral.A relação entre a dor - o sofrimento, a infelicidade - e a arte parece geralmente admitida, embora não se saiba se essa relação existe e, no caso de que exista, de que tipo é. Uma relação causal? Uma relação sublimatória? Uma relação meramente temática?Por outro lado, parece certo que os momentos de tranqüilidade satisfeita não são estímulos habitualmente geradoras da obra de arte. As pessoas extrovertidas, que se satisfazem com atividades esportivas ou semelhantes - caracterizadas mais pela ação do que pela reflexão -, não costumam se dedicar à atividade artística. Mas não só essas; de modo geral, qualquer pessoa que se sinta vivendo um momento de felicidade e plenitude, dificilmente sentirá necessidade de produzir arte, mesmo sendo artista.Isso não significa que esses próprios momentos de plenitude não são, eles próprios, geradores de arte. André Gide afirmou, certa vez, que “a arte nasce quando viver não é suficiente para exprimir a vida". Ou seja, se concordarmos com Gide, a arte é feita para suprir uma carência; nos momentos plenos - quando a máquina da vida parece funcionar satisfatoriamente bem - a arte é desnecessária. Talvez assim se explique a tendência a associar-se a criação artística com o sofrimento.


Aqui podemos estabelecer um paralelo entre a dor física e a dor moral. Do mesmo modo que o organismo vivo, quando está funcionando bem, por assim dizer, ignora-se a si mesmo, as pessoas também, na sua vida cotidiana, se tudo corre bem, vivem o presente pelo presente, sem qualquer preocupação com seus problemas e muito menos com o problema fundamental da vida humana: a inevitável morte.


E, do mesmo modo que, se o estômago anda mal, o homem se dá conta de que tem estômago porque ele dói, também se algum drama lhe ocorre - a perda de um ente querido, por exemplo -, ele é subitamente chamado a refletir sobre sua própria condição humana. Essa reflexão pode conduzir à necessidade da obra de arte.Neste paralelo que estabelecemos entre a dor física e a dor moral, fica evidente uma diferença essencial: até mesmo porque envolve questões existenciais, filosóficas, afetivas, morais, a dor moral - ao contrário da dor física, que nos reduz à condição de ``corpo" - nos coloca diante de nossos valores e de nosso destino. Enquanto a dor física tende a nos diminuir por entorpecer a reflexão, a dor moral tende a nos ampliar, por nos obrigar a ela.


Em resumo, tanto a dor física quanto a dor moral nos levam a tomar consciência da realidade. Detenhamo-nos um instante neste ponto. Se quando meu estômago está funcionando bem, não tomo conhecimento dele e só o tomo quando funciona mal, isso nos leva inevitavelmente a concluir que o normal é possuir estômago sem saber que o possui. E não se daria o mesmo, no plano da dor moral?


A normalidade não consistiria em ignorar a realidade da mesma maneira que ignoramos o nosso estômago? Acredito que, se se tratasse de uma simples opção, dificilmente alguém, saudável, preferiria viver com a certeza sempre presente de que está condenado à morte, de que o amor que vive agora não vai durar, de que dentro de alguns anos estará velho e achacado de doenças. O homem não quer sofrer. Se meu estômago dói, não posso ignorá-lo, mas farei o possível para me livrar dessa dor. Se a minha vida dói, a opção é mudar de vida ou, se não posso fazê-lo, descobrir um modo de fugir da realidade dolorosa: pelo misticismo ou pela bebida ou pela droga, etc.


A dor, portanto, além de ser um sintoma, é uma exigência do corpo - e da vida - para tomarmos consciência dos problemas e procurarmos resolvê-los. Se uma dor de cabeça pode ser eliminada com analgésico, para a dor da existência muitas vezes não existe remédio. E é diante da dor sem remédio, do problema sem solução, que surge a necessidade do poema ou da sinfonia: a arte é, de certo modo, uma solução para os problemas sem solução.


Cumpre observar, no entanto, que, se não é a dor física, tampouco é a dor moral que gera a obra de arte. A dor moral nos obriga a encarar a realidade, a redescobri-la na sua verdade, e essa redescoberta é que gera a obra. Sendo assim, devemos concluir que, não apenas a dor, mas qualquer outro fator de vida, que nos tire do equilíbrio em que nos mantemos à beira do abismo existencial, pode funcionar como espoleta do poema ou da sinfonia. Platão dizia que o conhecimento nasce do espanto. A arte também.


Um filósofo alemão, que teve grande influência sobre os artistas da segunda metade do século 19 e mesmo sobre artistas e pensadores que viveram depois. Arthur Schopenhauer, estabeleceu uma ligação estreita entre a dor, chegando a considerar a arte uma espécie de redenção do ser humano, condenado, segundo ele, desde que nasce até que morre, ao sofrimento.


Schopenhauer pinta o destino humano em cores negras. “Na primeira mocidade - diz ele - somos colocados em face do destino que se vai abrir diante de nós, como as crianças em frente ao pano de boca de um teatro, na expectativa alegre e impaciente das coisas que vão passar-se em cena; é uma felicidade não podermos saber nada de antemão. Aos olhos daquele que sabe o que realmente se vai passar, as crianças são inocentes condenados não à morte mas à vida, e que todavia ainda não conhecem o conteúdo de sua sentença."


Em seu modo de ver, a causa de todo sofrimento do ser humano é a necessidade de querer, a que está submetido. O homem sofre por querer o que não tem e, quando o consegue, sofre porque a satisfação do desejo é ilusória e efêmera. Diz Schopenhauer: "Querer é essencialmente sofrer e, como o viver é querer, toda a existência é essencialmente dor."




Seu livro "Dores do Mundo” começa assim: “Se a nossa existência não tem por fim a dor, pode dizer-se que não tem razão nenhuma de ser. Porque é absurdo admitir que a dor sem fim, que nasce da miséria inerente à vida e enche o mundo, seja apenas um mero acidente, e não a própria finalidade da existência. Cada desgraça particular parece, é certo, uma exceção, mas a desgraça geral é a regra." E acrescenta adiante: “pode se considerar a nossa vida como um episódio que perturba inutilmente a beatitude e o repouso do nada."


O caminho que ele aponta para o ser humano enfrentar sua miserável condição é, logicamente, a renúncia ao desejo, ao querer: “O homem seduzido pela ilusão da vida individual, escravo do egoísmo, só vê as coisas que o tocam pessoalmente, e encontra aí motivos incessantemente renovados para desejar e querer, já aquele que penetra a essência das coisas, que domina o conjunto, encara, pelo contrário, com tranqüilidade todo o desejo e de todo o querer. Daí em diante, a sua vontade desvia-se da vida, repele os gozos que a perpetuam. O homem chega então ao estado da renúncia voluntária, da resignação, da tranqüilidade verdadeira, e da ausência absoluta da vontade".Dentro dessa concepção, a arte assume para Schopenhauer um papel fundamental: por ser contemplação desinteressada - livre de todo propósito egoísta, ela nos dá o sentimento de paz em toda a sua plenitude. E de todas as artes a música é, segundo ele, a que melhor cumpre essa função: “Quando ouço música, a minha imaginação compraz-se muitas vezes com o pensamento de que a vida de todos os homens e a minha própria vida não são mais do que sonhos dum espírito eterno, bons e maus sonhos, de que cada morte é o despertar."


Dentro de sua concepção filosófica, a arte funcionaria como expressão dessa necessidade de fugir às contingências da vida, um equivalente à renúncia ao desejo. “O que dá ao trágico um impulso particular para o sublime - diz ele na obra `O Mundo como Vontade e Representação' - é a revelação deste pensamento, de que o mundo, a vida, não pode satisfazer completamente, e por conseqüência não é digna de que fiquemos presos a ela: é nisto que consiste o espírito trágico - em conduzir-nos à resignação".


É fato indiscutível que o sofrimento e a morte são dados consubstanciais à existência humana, ou seja, ignorá-los é simplesmente falar de alguma coisa que não é a vida.A maior parte do tempo de nossa vida é constituída de fatos banais, mesmo porque não se suportaria viver com a permanente intensidade dramática de uma peça de Shakespeare ou de uma tragédia de Sófocles. Felizmente, o dia-a-dia é corriqueiro e banal, com grandes tumultos e dramas. Isso torna a existência monótona e, por essa razão, as pessoas buscam meios e modos de quebrar-lhe a monotonia, já seja promovendo festas, bailes, jogos, espetáculos, enfim, toda a série de entretenimentos, como os que encontramos em nossa época: a televisão, o cinema, o teatro, o show musical, o esporte, a leitura de jornais, de revistas e livros, etc.De acordo com a classe social a que pertence e as circunstâncias da época, o indivíduo experimenta uma vida mais ou menos tranqüila ou atormentada: por exemplo, os moradores das favelas do Rio de Janeiro vivem em permanente sobressalto, numa atmosfera de drama quase equivalente às tragédias e dramas do teatro ou do cinema: são fatos freqüentes, em seu cotidiano, tiroteios e mortes, agressões, crueldades, uma permanente situação de pânico e insegurança. Nem por isso as pessoas que enfrentam essa vida atormentada escrevem peças de teatro, poemas, ou fazem filmes sobre tais coisas. Nem mesmo os sambas, que os artistas dessas comunidades compõem, versam sobre esses problemas.


A tese de Schopenhauer de que a vida humana ou é dor ou é monotonia, já que a felicidade dura pouco e o que prepondera é o sofrimento, pressupõe que as pessoas não suportam o cotidiano e que, por essa razão, aspiram à morte. Não é isso, porém, o que a experiência nos mostra: as pessoas, mesmo as que têm uma vida de privações e sofrimentos, querem continuar vivas e mantêm acesas a esperança de uma vida melhor no futuro.


Uma coisa que o filósofo alemão parece não ter percebido é que a gente mais pobre - que experimenta, além do sofrimento natural da existência, as privações da miséria - tem mais disposição para se divertir, é mais alegre, efusiva e vital que a maioria dos que desfrutam de melhores condições materiais de vida. O desencanto, que a filosofia de Schopenhauer reflete, encontra-se mais facilmente em integrantes da classe média e da classe rica - à qual ele próprio pertencia - entediados e temerosos de arriscar o que conseguiram. O que parece mostrar que a relação entre o sofrimento e a vontade de viver não é tão simples quanto ele imaginava, e que a renúncia a todo o desejo e a aspiração ao nada não são a única resposta possível às dores do mundo.A intuição dessa complexidade encontramos na visão de outro filósofo alemão, Friedrich Nietzsche. Indagando a razão do surgimento da tragédia na civilização grega, marcada pelo desejo da beleza, da festa, da alegria, responde que, talvez, aquela inclinação para o mito trágico, venha exatamente, da força, da saúde exuberante, enfim, do excesso de vitalidade do povo grego. Identificando o pessimismo com a racionalidade socrática, Nietzsche, em prefácio a seu livro “A Origem da Tragédia", afirma que a existência do mundo só se justifica como fenômeno estético, criação de um Deus puramente artista, absolutamente destituído de escrúpulos e de moral, para quem a criação e a destruição, o bem e o mal, são manifestações de seu capricho indiferente e de sua onipotência.


Nietzsche observa que nada se opõe mais a essa interpretação puramente estética do mundo do que a doutrina cristã que, com seu moralismo, relega a arte ao reino da mentira, isto é, nega-a e a maldiz. A essa visão moralista - que reprime as paixões, teme a beleza e a volúpia - Nietzsche contrapõe o espírito dionisíaco, o êxtase dionisíaco, a identificação com o que ele chama de “a incomensurável alegria primordial da existência".


Não resta dúvida que a dor, o sofrimento, é com freqüência a matéria-prima do teatro, do romance, do cinema, das novelas de televisão. Mas isso não significa que as pessoas desejem viver no sofrimento ou que prefiram o sofrimento (o drama, a tragédia), ao cotidiano tranqüilo e rotineiro. Pelo contrário, a rotina é condição necessária à preservação da tranqüilidade e segurança interior.


Há aqui um detalhe que deve ser considerado: uma coisa é viver na tragédia, outra coisa é vê-la no teatro ou lê-la no livro. O teatro, o romance, a poesia, o cinema, foram criados pelo homem exatamente para quebrar a monotonia da vida. Do mesmo modo, que antigamente, nas tribos, o contador de histórias distraía os demais com narrativas às vezes assustadoras, às vezes misteriosas, dramáticas ou engraçadas, hoje quem nos distrai, nos assusta ou nos diverte é o teatrólogo, o poeta, o romancista, o cineasta, o novelista de televisão.


Aristóteles já havia compreendido que a tragédia cumpre uma função social (cultural), quando definiu o seu papel catártico sobre o espectador. Goethe considerava que essa catarse se fazia igualmente sobre o autor. De qualquer modo, a experiência simbólica ou fictícia do sofrimento é uma necessidade do ser humano. O espectador não vai ao teatro ou ao cinema porque aspira a mais sofrimento em sua vida: ele vai para viver uma vida de graça, para experimentar a emoção dos dramas humanos, sem pagar o preço que se paga na vida real.


Quando a luz do cinema acende, o sofrimento se revela fictício, provocando um alívio equivalente ao que experimentamos ao acordar de um sonho mau. Exatamente o contrário do que ocorre na vida, onde o sofrimento é real, a perda é real, a luz não acende ao final do espetáculo nem os atores, que “morreram" em cena, se levantam, vivos outra vez, para agradecer os aplausos.


Não obstante, e por isso mesmo, a vocação do homem é para a felicidade. E a arte é, contraditoriamente, uma afirmação dessa irrenunciável necessidade. Já dizia o poeta paraibano Augusto dos Anjos - que aliás era leitor de Schopenhauer - que “a mais alta expressão da dor estética/ consiste essencialmente na alegria". De fato, o próprio Schopenhauer reconhece, quando fala da música, que através dela o compositor consegue superar a vontade (o querer) que implica sempre em sofrimento.A relação entre a dor e a expressão artística deve ser examinada na sua complexidade. Uma obra de arte, mesmo a que mais cruamente expresse o sofrimento humano, não é igual a um grito de dor. Um grito de dor não é arte. Noutras palavras, a dor pode ser matéria-prima da arte - em muitos casos - mas a obra mesma resulta da elaboração complexa da emoção e da linguagem estética, visando criar uma totalidade cujo significado transcende a experiência que a motivou. A própria atitude do poeta ou do dramaturgo, quando se dispõe a transformar uma experiência dolorosa em obra de arte, já indica uma superação da dor mesma, tornada objeto de reflexão. Um necessário distanciamento estabeleceu-se entre o homem que sofreu e o seu sofrimento para que ele tenha sido capaz de transformá-lo numa peça ou num poema.Certamente a experiência existencial está viva nele, mas já não é a mesma, porque a dor real, se nos atinge profundamente, nos incapacita de, enquanto a sofremos, transformá-la em prazer estético. A formulação, na obra, do sofrimento experimentado guarda, conforme o caso, diferentes distâncias com respeito à dor vivida. Mas nunca é a dor mesma que aparece na obra, pelo fato de que a obra é a superação da dor, a sua transformação alquímica em alegria, em prazer estético. Como disse Fernando Pessoa:


O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente


O homem, por sua própria natureza, hesita entre a segurança e a aventura, a tranqüilidade e a emoção. Por isso, ao mesmo tempo que aceita a rotina do cotidiano, é induzido a violá-la; preserva seu casamento tedioso e busca no cinema ou na novela de televisão a paixão fictícia que não pode viver. Isso tanto vale para o expectador e leitor como para o autor: de algum modo, através dos personagens que cria, das melodias que concebe, o artista vive uma outra vida, experimenta outras emoções, em suma, escapa à pobreza e aos limites de sua vida banal.


E é precisamente o grau em que essa necessidade se manifesta no individuo - somado certamente a outras qualidades - que determina se ele será um consumidor ou um criador de obras de arte. Deve-se observar, porém, que o que caracteriza o artista não é a simples necessidade de fugir à realidade banal e dolorosa, mas a capacidade de criar, com sua arte, um universo simbólico próprio, dentro do qual o mundo e a vida, com suas incongruências e enigmas, se tornam de algum modo assimilável.Albert Einstein, num discurso pronunciado por ocasião do sexagésimo aniversário do físico Max Planck, afirmou que “o homem procura formar, de alguma maneira, mas segundo a própria lógica, uma imagem simples e clara do mundo. Para isso, ultrapassa o universo de sua vivência, porque se esforça em certa medida por substituí-lo por essa imagem. A seu modo, é esse o procedimento de cada um, quer se trate de um pintor, de um poeta, de um filósofo ou de um físico. A essa imagem e à sua realização, consagra o máximo de sua vida afetiva para assim alcançar a paz e a força que não pode obter nos estreitos limites da experiência agitada e subjetiva".


De fato, a experiência estética é essencialmente diversa da experiência real. A experiência real tem, obviamente, o peso da vida, a densidade, a complexidade específica e a irreversibilidade da vida. A experiência estética não. Trata-se de uma experiência “fictícia". Nela, o homem-autor lida com significações e não com fatos; o terreno no qual se move não é o chão do planeta, mas a linguagem; o tempo que “vive" na obra não corresponde ao tempo real da vida transcorrido enquanto a elaborava. Por isso mesmo, a dor que eventualmente experimentou em sua vida e que teria motivado a obra, nela deixa de ser a dor real, perde a especificidade da dor real; transforma-se, pela reflexão e assimilação ao universo simbólico do poeta, em puro significado, ainda que ligado à experiência vital.


E aqui há um outro ponto a sublinhar: a significação poética não é da mesma natureza que, por exemplo, a significação matemática ou filosófica. A significação poética nunca alcança o nível de abstração e generalidade que aquelas alcançam. Ela se nega a tornar-se conceito, lei ou princípio teórico. A poesia, a arte, é um tipo de realização intelectual que se situa entre a experiência direta do mundo e a formulação conceitual abstrata: o artista rejeita a experiência imediata do real, na medida em que a transforma em linguagem, mas também rejeita a sua transformação em conceito abstrato porque deseja preservá-la como vivência individual e afetiva. Essa é a razão por que não seria descabido afirmar que, se o artista, como todo ser vivo, necessita escapar à dor, não quer fazê-lo ao preço de renunciar à própria vida.




FERREIRA GULLAR
em Jornal Folha de São Paulo
Caderno MAIS! Página: 5-11
07/05/1995

quinta-feira, 17 de maio de 2012


Poiesis: o agir do homem enquanto agir-se
(Texto discursado na Academia Mineira de Letras, em 18/05/12, em razão da 10ª Semana de Museus, pelo Museu Nacional da Poesia)



Falar de poiesis, da origem da poesia, é falar da origem do próprio homem. Sem a poesia, simplesmente não poderia haver o homem, tal qual o conhecemos. A poesia é a projeção do humano e confunde-se, ainda hoje, com própria definição de arte.
E isso é fácil de se perceber. Por muitas vezes conclamamos a poesia presente numa composição musical, num quadro, num retrato ou fotografia, mas não apenas: há poesia nas linhas arquitetônicas, no traçado urbano, no orçamento de um país, de um estado, de uma cidade, de uma família. Há poesia em toda parte.
Aristóteles, em seu estudo chamado Poética, compara poiesis (fabricação; atividade: o fazer humano) à tecnè (arte no sentido de engenho, destreza) e conclui que não existe tecnè sem poiesis. A poesia como extensão do humano, como projeção criadora e potencializadora do ser, é todo e qualquer fazer humano.
Dito isso, é importante ressaltar um aspecto do entendimento do termo pelos antigos gregos. Poiesis seria o princípio pelo qual se dava a criação. Não se separava o trabalho da poesia porque cada criação humana, seja ela uma cadeira, uma porta, um espelho, um quadro ou as curvas arquitetônicas de um edifício, o traçado de uma cidade, a composição de uma praça, todas essas criações são extensões criativas do ser humano, são visões do modus vivendi e, também, de como ele pode e deveria ser. É como o poeta quando faz um verso que toca profundamente a audiência: o que toca é aquilo que tem de humano, de universal, é a extensão do sensível que há em nós, em todos nós seres humanos, que o poeta toca e, por vezes, faz até doer. Não obstante são assim tanto uma composição filarmônica, quanto, para a história da humanidade, o trem de ferro, o automóvel, a nave espacial: suas potencialidades e suas extensões multiplicadoras do futuro da humanidade, são pura poiesis.
Em um dado momento da história da humanidade aconteceu a dissociação entre tecnè e poieis. A partir de Descartes, de Kant, entre outros pensadores, a técnica passou a ser vista como algo individual, separado do todo. A tecnologia divorciou-se da poética. Assim, os usos também passaram a ser vistos como algo particular. Em algum momento, perdeu-se a dimensão do universal e, hoje, tornamo-nos consumistas, mas de produtos sem alma coletiva, sem ligações cognitivas, sem o lastro poético. Há muito mais poesia no transporte público do que no carro particular. Muito mais poiesis num puxadinho do que num conjunto de apartamentos idênticos e impessoais.
No entanto, ainda trazemos resquícios desse tempo sem a ruptura do homem com a poesia. O engenho humano, poiesis por definição e excelência, dá nome à profissão que talvez menos nos remeta à poesia: as Engenharias. No entanto, quando um engenheiro faz cálculos para uma represa, um prédio, um planejamento urbano, fios e tensões elétricas e sua difusão, ele está projetando uma forma de viver, uma perspectiva de futuro para ser compartilhada. Ele não pode preocupar-se ou ocupar-se apenas de suas convicções: estas estão ali, mas diluídas num conhecimento e numa perspectiva de uso que tange o universal e suas conseqüências. Um prédio, com o perdão do trocadilho infame, é poesia concreta, a que tudo nos remete: formas de viver, separação social, solidão, contraposição à natureza, o dramático que existe entre a especulação imobiliária e o desejo de ter um quintal... o Engenho humano, a tecnè aristotélica, é pura Poiesis, se for, desta feita, sensível. Caso for insensível, ela gerará a poesia, como fonte de inspiração indissociável desta.
Mas nem sempre foi assim e não faz tanto tempo. Por exemplo, os primeiros físicos da história ocidental eram poetas. Pra ser mais exato, não havia essa diferenciação entre ser poeta, físico, matemático ou filósofo, pois em todas essas atribuições havia a dimensão do sagrado. Pois eles sabiam que a dissociação entre sua arte, seu fazer e o universal, o coletivo, o modo de vida, enfim, o ser humano enquanto entendimento comum de todos nós, mamíferos, bípedes, com nossa estranha memória e sentimentos em relação à natureza e aos outros seres semelhantes, é esvaziada de sentido. Como eu disse anteriormente, não havia tecnè sem poiesis. Não havia diferença entre o saber científico e a intuição poética.
A própria poesia é fundadora de nações. Como nos diz Heidegger, a poesia é a linguagem primogênita de um povo. Ela não trabalha o léxico: o poeta cria o léxico, como nos lembra Décio Pignatari. Sem a dimensão poética, o ser humano não teria conseguido se expressar coerentemente a ponto de se comunicar. As primeiras formas de comunicação ritualísticas eram poemas onde aqueles agrupamentos humanos se traduziam. É na expressão poética do mito que emerge a identidade coletiva. Para dar mais clareza a essas afirmações, pensemos em Dante Alighieri que, com seus escritos, torna-se (ele ou seus poemas) o pai criador do Italiano e, uma vez criada a língua compartilhada por muitos, inaugura-se também um povo, uma identidade, signos compartilhados. Camões também é um exemplo claro e tão caro à identidade portuguesa moderna: os Lusíadas fazem do poeta o maestro da língua. E não há um português que não remeta à visão mítica presente na criação de Camões no seu entendimento identitário enquanto português e enquanto pertencente a uma nação inspirada naquela criação poética.
Assistimos ao longo do tempo, a individualização da poesia e de seus temas. Ainda assim, hoje, quando um poeta canta sua dor, ele sabe que aquela dor só se tornará poema se tocar a semelhante dor universal compartilhada por todos os seres humanos. É na dimensão universal onde se estabelece o sensível e, hoje, as formulações estéticas todas – a arte formal, por assim dizer – correm atrás de signos compartilhados, nesse mundo pós-moderno, onde a dissociação da poiesis com a existência humana tornou-se tão premente que somos todos fragmentários, uma colcha de retalhos onde tentamos, nós, os retalhos, formarmos um tecido coerente. Isso ocorre porque, na maioria das vezes, agimos e/ou pensamos sem poesia. Não damos às coisa que fazemos o seu sentido original: a comunhão entre todos os seres humanos. Esquecemos a nossa interligação, a conexão entre todos os seres e, sobretudo, a conexão entre nós mesmos, reflexos que somos do absoluto. Esquecemos que é aí onde mora a poesia, muito longe do cérebro, do racional, tão próxima do coração, esse órgão-signo da sensibilidade. Nesse sentido posto, quando fazemos as coisas pensando nos outros, num todo maior do que nós e que nos abarca, pensando nas conseqüências para o resto da humanidade, não somos religiosos apenas, se esse é seu entendimento de religião: somos todos poetas.
Portanto, minha sugestão aqui, nesse dia, é que voltemos um pouco e restabeleçamos a poiesis em nossa caminhada humana pelo tempo. A poesia é o religare entre a solidão e a humanidade, entre a separação e a comunhão, entre o técnico restrito e o universal. Entre a tristeza e a alegria. Entre o silêncio e som. Entre o ser e o não ser.