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Hoje,
15 de novembro, vou terminar de ler o 1889, do Laurentino Gomes.
Leitura difícil, não pela qualidade do livro, muito bem escrito
pelo autor, tão bom quanto o 1808 e o 1822 mas, sim, pela história
do Brasil narrada naquele momento do golpe institucional que resultou
na queda da monarquia.
Um
golpe militar que, aliado às oligarquias conservadoras e retrógradas
do país, inspirados em Augusto Comte e seu positivismo que,
simplesmente, despreza o povo, que, segundo esses "pensadores",
é um ser passivo, ingênuo e ignorante que necessita de uma elite
dominante e supostamente sábia para guiá-lo das trevas em que vive
(a desordem) à luz (o progresso). É tudo muito duro de engolir e
digerir.
Atirou
o país praticamente numa república oligárquica onde os ricos
proprietários se alternavam no poder à mercê da vontade e dos
interesses do povo, esse ser, também para tal "elite",
ignorante e desprezível. "Greve é caso de polícia", já
dizia um dos presidentes desse primeiro período da República.
O que
mais enoja é perceber que o golpe militar de 1964, que teve ajuda
dos EUA e do chamado "capital associado", ainda com
resquícios e influências (tardias e anacrônicas) do positivismo de
Comte, inspirou-se nas mesmas prerrogativas de desprezo pelo povo e
pelos pobres. O mesmo preconceito arraigou-se em parte da elite, que
continuou achando-se intelectualmente superior aos demais brasileiros
e que, enquanto o poder emanar do povo e para o povo, as coisas
estarão fora do lugar. Foram mais de 20 anos de "eu prendo, eu
arrebento"...
Duro
mesmo é perceber que, ainda hoje, idéias que já eram anacrônicas
no final do século XIX permaneçam, com tanta força e agora
escancaradas por alguns dos filhos dessa elite golpista e
antidemocrática, em pleno século XXI... E ainda se consideram elite
intelectual - e ainda desprezam (ou simplesmente ignoram) a força, a
gana, sagacidade e inteligência do povo brasileiro.
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De qualquer forma, recomendo a leitura do livro, complementada pelos
livros do José Murilo de Carvalho (Os Bestializados e A Formação
das Almas) e, claro, do Raimundo Faoro (Os donos do Poder).
