segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Release do lançamento do livro Passagem


Sérgio Mitre lança “Passagem”

“Passagem” é o livro de estreia do poeta, jornalista e historiador Sérgio Mitre. Trata-se de uma seleção de 33 poemas com temas, motivos e estilos diversos, recolhidos em 15 anos de exercício literário. Nos blogs opoetadebicicleta.zip.net e paesopiniaes.blogspot.com, Sérgio Mitre publica a maior parte de sua produção literária.

Historiador e jornalista, Sérgio Mitre também escreve crônicas e contos para outros blogs e sítios na web. O poeta também fez letras para composições musicais, em parceria com músicos e bandas mineiras. O livro, produzido pela editora Ophicina de Arte e Prosa, terá tiragem de 500 exemplares.

Trajetória. Histórias em quadrinhos e Monteiro Lobato, assim como poetas, os poetas brasileiros da terceira geração do romantismo e parnasianismo sempre fizeram parte da infância de Sérgio Mitre. Na adolescência, apaixonou-se pela poesia de Manoel Bandeira e sua melancólica espera pela morte, que nunca chegava. É nesse momento também que conhece Alberto Caeiro e toma contato com os heterônimos de Fernando Pessoa, que se tornarão influência marcante nessa trajetória.

Decidido a ser um escritor, começa a devorar livros da literatura nacional e internacional, tentando desvendar os segredos da escrita através da leitura dos clássicos e dos escritores consagrados. No curso de História, procura ler os cronistas que descreveram em versos o seu momento histórico, como Camões, Gregório de Matos, Bertold Brecht, Pablo Neruda e Maiakovski, por exemplo. Apartir da leitura deste último, começa a entender a construção do poema como um trabalho diário e árduo, de elaboração e procura da poesia.

Na faculdade de Jornalismo, conhece a ciência dos signos e os escritores do Movimento Concreto, expandindo ainda mais as possibilidades da arte da poesia. Nesse período em especial o livro "Comunicação Poética", de Décio Pignatari, tem influência marcante e definitiva nos conceitos e na forma de escrever e desenvolver a própria idéia de poesia.


Evento: Lançamento do livro "Passagem", de Sérgio Mitre
Data: 07/12/10 (terça-feira), de 19 às 22hs
Local: Biblioteca Estadual Luiz de Bessa
Praça da Liberdade, 21 - Funcionários
Belo Horizonte/MG
Contato:
Sérgio Mitre – livropassagem@gmail.com
31 8876-2567

Crítica
Prelúdio para a poesia de Sérgio
Maria da Graça Rios, Mestre em Literatura Brasileira

Passagem é um livro de poesia. Boa poesia, trabalhada, vertiginosa. Sérgio cresceu, e sua paixão
pela vida esteve sempre presente, neste livro do futuro. “A alma batucada” está no tempo, junto
com a juventude inerente ao texto. Tudo em Sérgio são “nuvens modeladoras”, sempre inspiradas na “Infância” do poema. Espinhos
são troféus e os laços desses versos são “os rastros (que) desafiam a física”. Um estilo fluente, uma
amorosidade com os seres, essa é a performance de Sérgio.
O poeta compreende o existente e, às vezes, chora. Uma “lágrima amadurecida / soluça pelo corpo”.
E de repente percebe o inusitado, aquilo que um escritor jovem e de vanguarda poderá sentir.
São “As plantas dos meus dias” sementes de harmonia e de beleza contidas em taça de cristal.
“Lutar com palavras / é a luta mais vã”, nos diz Carlos Drummond de Andrade. Também Sérgio
busca o impossível da palavra, lembrando ao leitor o quanto é penoso escrever. “Não encontro a
imagem / A forma correta” diz ele no poema “Anseio”, pleno de saudade, termo só traduzido na
língua do Lácio.
Há muita filosofia na cabeça de Sérgio. Mais do que sonha a interpretação do leitor. Mas tudo se
encontra numa “Dimensão que ninguém conhece”, em “tardes em cinzas” e é preciso caminhar.
Nessa rota subjetiva vamos todos nós, de passagem e passagens. O que queremos ver, nestes
poemas, é a sofreguidão dos sentimentos, ultrapassando os sentidos. Então, Sérgio nos encontra e
nos mostra uma realidade, tecida de noites ou dias bem ou mal vividos.
Carpe Diem” Viva a vida! _grita o poeta e reavivamos seu grito. Eis a vida de um poeta que nasce
na boca do povo. Vamos juntos, cantando de mãos dadas, procurando trilhas que, por certo, nos conduzirão a um mundo infinito. Um lugar onde todos ouçam a voz e o tom de nosso Sérgio, cantor. Onde o absurdo do tempo seja fácil compreender e se possa, enfim, descansar o corpo.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Guerra ou paz

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Eu defendo a legalização imediata e irrestrita de todas as drogas. Só assim para desarmar o crime organizado. Das drogas e do jogo do bicho. Um país onde o próprio governo federal promove jogatina não tem justificativa moral pra prender "bicheiros". Um país com tantos usuários de drogas lícitas (Álcool, Tabaco, Prozac, ansiolíticos de todas as espécies e "baratos", etc.) e ilícitas, não há justificativa social.

Sempre é bom lembrar que o Al Capone, e todo o crime organizado e violência em volta dessa figura, só existiu enquanto as bebidas foram proibidas nos EUA. Fim da proibição e, é lógico, fim da criminalidade associada.

O tráfico que deveria ser combatido não é o de drogas, a meu ver, mas, sim, o de armas. Esse mata muito mais. Aliás, o enfrentamento, a guerra, toda a munição gasta - e que terá que ser reposta - geram lucros pra quem? Para os fabricantes e fornecedores de armamentos. Talvez aqui, muito mais do que a questão moral, se esconde a justificativa para manter a proibição.

A ilegalidade gera muitos lucros ao traficante (preços mais altos, não tributação, etc.) e ao fabricante de armas e munição. A "bancada da bala" no Congresso tem muito interesse no enfrentamento, na guerra, no gasto de munição e na reposição de estoques de armas nos quartéis e delegacias. A paz não gera lucros, não interessa ao negócio.

Resumindo meu raciocínio: o problema não são as drogas mas, sim, sua ilegalidade. Por que evitar morrerem drogados e deixar que tantas vidas inocentes morram? Quem usa droga até morrer, de certo modo, escolheu a vida que quis. O que me indigna é ver tanto pobre, tanto favelado, morrer pela vida que não quis - ou que quis evitar!

Se as drogas fossem lícitas pagariam impostos e financiariam - pelo menos em teoria - o sistema de saúde adequado à realidade.

Quero deixar claro que não discrimino quem toma remédios, quem precisa deles, muito menos quem toma só pra dormir ou mesmo pelo barato. Isso ou aquilo. Esse não é o problema.

Não discrimino ninguém pelas falhas. Nem pelos acertos. E de guerra estamos fartos.

Paz!

Por que não?

Seria o maior barato!
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domingo, 31 de outubro de 2010

A vitória é de todos nós

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Em todo momento nessa eleiçãoo defendi o seguinte: vote por ação, não vote por reação. Sejamos convictoss em nossas escolhas e posições políticas. Só assim se marca posição numa democracia.

Essa é, aliás, a importância da expressiva votação em Marina, no primeiro turno. A afirmação do discurso ecológico e o recado, via urnas, que esse é um tema de relevância para o Brasil e para muitos brasileiros. Marcaram posição e estabeleceram - por meio do voto, da democracia - a pauta do desenvolvimento sustentável na agenda do país.

Não adianta medirmos governos ou candidatos pelas falhas. Governos, partidos, pessoas públicas devem evitar, mas são passíveis a cometer erros. Irregularidades, corrupção, falhas estruturais e de fiscalização podem ser descobertas, as pessoas punidas, e as falhas sanadas - o que é o mais importante, para que não aconteçam novamente. Isso não desqualifica todo um governo, todo um partido ou todas as pessoas envolvidas com a vida pública.

Agora, finda a eleição, minha preocupação é acalmar aqueles que, denunciando os riscos à democracia nessa eleição - e eu nunca vi eleição direta ser ameaça ao estado democrático... - acabam, eles próprios, jogando contra os princípios democráticos.

Por fim, quero dizer que quem ganhou foi o Brasil. Quem ganha ao final de toda eleição direta, com mídia livre, participação e vigilância intensa do TRE, TSE, do MP e outros órgãos importantes do Estado de Direito, com todo esse aparato democrático e constitucional funcionando, somos todos nós. Antes de serristas, dilmistas, petistas ou tucanos, somos todos cidadãos brasileiros.

A vitória da democracia é uma vitória nossa! Uma oposição vigilante e coerente também faz parte dessa vitória. Espero que ela seja tão ética e responsável quanto a pregação da campanha. Isso será bom para todos nós, brasileiros!

Viva o Brasil.
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PS: Votei na Dilma.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Mas, afinal, o que é educação?

Sou historiador. Trabalho com textos históricos e pesquisas. Mas minha vocação é dar aulas, coisa que, infelizmente, pouco fiz.

Não vou descartar aqui o problema do sistema de ensino no Brasil. O salário dos professores, ao meu ver, afasta as melhores cabeças da profissão.

(lá em casa, somos dois. Um formado em história, outro em matemática. Meu irmão seria um excelente professor. Mas teve que ganhar a vida e hoje é funcionário público. Que país estamos construindo, onde a carreira de burocrata vale mais que a de um educador?)

Mas aqui fico com a velha ladainha, educação não se faz só na escola. A escola está como está porque falta educação fora de seus muros. Qual educação?

Cívica. Mais: humana. Uma dimensão mais em conjunto do que nos resultados individuais. Isso começa em casa, mas pode ser proposto no trabalho e na política. Na vida, enfim.

Nossa sociedade valoriza muito o sucesso. A vitória. Na sua pior face, a dicotomia, o winner e o loser, o que "deu certo na vida" e o coitadinho. Tudo isso educa...

Não serão políticas governamentais que mudarão a educação no Brasil ou no mundo. Uma mudança na política humana é que gerará a transformação educacional.

Não é por acaso que o sistema de ensino não é tratado com relevância no debate institucional. Não é uma preocupação, um valor da sociedade.

Ainda não!

Por isso também, a importância da religião. Do desenvolvimento do espírito. Espírito? Do que estamos falando? Da dimensão humana. Da integração entre todos nós. Chame do que quiser. Falo do plano divino, do absoluto, do todo, da interdependência, carma, maktub, do amor ao próximo. De como se quiser chamar, crescer e entender. E sentir. E viver.

(pra mim, é tudo a mesma coisa, o problema é a Torre de Babel. Um desafio simples, colocado para todos nós, que gostamos de complicar as coisas...)

Falta, na discussão da educação, a preocupação com o futuro, com o próximo. A dimensão de que tudo isso, no fim, é uma preocupação com nós mesmos. Não é a educação pública, onde não colocamos nossos filhos se tivermos escolhas, é o Brasil, o mundo, o futuro. O lugar onde todos nós, integrados, iremos viver.

Talvez então diminuam nossos muros altos e cercas elétricas.

Se tivermos esse carinho com a educação, teremos esse amor pairando no ar num mundo mais desejável. Sonhos bons não se sonham sozinhos.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Tiriricas

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O que me preocupa com os tiriricas da vida não é o fato em si, de suas candidaturas. O que preocupa é o vácuo de pessoas sérias, comprometidas e bem-intencionadas na política. É para ocupar esse espaço, legítimo, que esse tipo de candidatura, oportunista, toma de assalto.

Há muito me preocupa esse repetido e insistido discurso de que "político é tudo igual", "política é só sujeira" ou a clássica "não adianta, entrou lá TEM QUE se corromper", etc. Esse tipo de discurso, esse descrédito pela política, afasta os jovens, as pessoas de bem e as lideranças legítimas e com real representatividade.

Pessoas que, por conta desse malfadado discurso, se afastam da efetiva participação política.

Esquecem-se da famosa e oportuna frase de Platão: "Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam".

Como eu sempre defendo, esse discurso de descrédito com a política só serve àqueles que querem conservar o status quo. Esse discurso só serve ao poder constituído, que não deseja transformação de tanta coisa premente de mudança no Brasil.
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PS: No entanto, há o que se comemorar nesse pleito. Já são 25 anos, desde 1985, de eleições e (re)construção da democracia. Mais anos do que ficamos no regime de exceção. É hora de apresentarmos aos mais jovens essa novidade no nosso país e qualificar nosso processo democrático. Vamos aprendendo, não temos muita prática em escrutínios. Vamos melhorar!

domingo, 29 de agosto de 2010

Porreta

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O pouco que a gente é muito. De tudo um pouco se vai ao longe...

Vida mais no tempo moído. Vida menos, mais sentido. O machucado menos calado quando exposto. Compassivo.

Os sonhos cardos. O mar menos aquele que somos. Sempre grande demais nos nossos pequeninos planos. Presos que estamos, nessas capitais de insanos.

O que pulsa é grito, o que descreve é letra. O arrepio que esquenta. O calafrio.
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Esses filósofos

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Tudo q sei é que nada sei, diria o grego

já o mineirim diria: trem bão é coisa boa!

domingo, 1 de agosto de 2010

Agora, não!

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Mineirão lotado. Torcida do Galo. Pleonasmo.

Sento na minha cadeira, canto com a massa, faço amizade. Reunião de preto e branco e raça. Um mundo atleticano; a gente fica à vontade.

Conversa vai e vem e volta e meia um critica a escalação, encasqueta com jogador, torce o nariz e distorce o torcedor. Fala que tá errado, mal-arrumado, desemplumado.

Agora não! Digo, redigo, repito e suplico: agora, não!

Agora somos a torcida do Galo. Aquele time ali em campo é das coisas que mais amamos na vida. E quem ama incentiva. Quem ama embala num abraço.

Agora não! Uma vez trajando a alvinegra, esse é o time que vamos ajudar. Agora, não importa a escalação, a qualidade e muito menos a nossa própria individual opinião.

Agora somos a massa! Temos um sentido e uma missão: cantar com raça, pro time jogar com mais disposição.

Agora não é hora de sermão. Quando a bola rola embola nosso coração. Hora de cantiga de roda. Hora de religião.

Tudo é todo um coro de um grito solidário. Galo! Agora, o Mineirão é palco de toda redenção.

O que nos resta é o real: torcer atleticano e crasso. Quanto maior o gigante enfrentado, mais forte eu acredito e canto dobrado.

Não é hora de se afastar do agora, apegar opinião. Agora, lá embaixo, são onze pra entrar pra história. Na arquibancada, uma nação que colabora.

Por isso, no Mineirão, eu papagaio agora não! Agora é a hora mais temida pelos rivais nesse mundão: a hora em que a torcida do Galo entra em ação.
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quarta-feira, 28 de julho de 2010

Contraproducente

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O que se percebe é que todas as pessoas desejam ser amadas, mas muito poucas dispostas a amar – o que é muito contraproducente! Muita gente querendo receber um tratamento diferente, mas poucas dispostas a oferecer a outra face.

Muita gente exigindo transparência e usando disfarces. Muitos apagando velas querendo luz. E tome gasolina pra combater o fogo!

O que intriga é que as pessoas são tão capitalistas no meio de vida e tão pouco práticos no seio particular. Onde anda a eficiência afetiva?

O que não percebem é que nas relações de sentimento, o pior ativo é a troca. Passível de doação, quando se ama, o ganho é o que menos importa.

domingo, 9 de maio de 2010

A insensível violência da comunicação de massa

A violência nos cerca pelas bancas de jornal. Não escapamos dela. No entanto, somos tão alheios, nos colocamos tão distantes, tão importantes, como se a nossa face não estivesse no reflexo e na separação das partes – castas modernas – , onde nos escondemos. Nos chamados lares.


Chego em casa para me esconder. Atrás de barreiras, grades, chaves, eletricidade, uma segurança de barco que não percebe a margem. Flutua confortável, bandeira do cólera hasteada, mas não por amor como em García Márquez. A doença não é uma solução para que o amor se eternizasse. É câncer, disfunção da sociedade.


Nesse dia a segurança me trái, a dois passos da entrada a faca me lembra, a faca me mostra, a faca me força a ver o que as grades me esperam esquecer. Um homem, um menino, um pobre, um pária. Dentro da minha casa. É a violência que se instala pelo sangue e pelo vidro da janela quebrada.


Converso com ele, peço calma, não vou fazer nada. Nunca fiz nada... O que agora me parece assustador é o nó que me cala a alma: ele é de carne e ossos, tem fome e sede e TV em casa. Assiste aos mesmos programas, às mesmas propagandas, às mesmas promessas e barganhas, bancas onde ele não pode apostar. Ele não tem grana. Mas a felicidade que é vendida a ele está na mesma loja do bacana.


Me explica que amanhã é dia das mães, sua mulher grávida, um atropelo de palavras num desespero mudo que agora exala como um cheiro no escuro. Ele mal tem casa, mas se casa e sua esposa, grávida. Mãe tem que ganhar presente, a televisão não pára, o mundo é exigente, seu brilho de ódio nos olhos estanca as lágrimas:


- “Por quê minha mulher não pode ganhar nada, cara?!”


A insensibilidade é que nos mata, quando os números substituem as pessoas e as estatísticas nem se lixam pra questões humanitárias. Ele é gente, tão igual e diferente, nessas tantas direções contrárias. Não perceber as semelhanças é não querer entender as falhas.

terça-feira, 16 de março de 2010

Sem segredos

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Três da tarde de um sábado raro. Eu aqui, todo natureba, comendo creme de açaí pra substituir o almoço.

Toca a campainha no terceiro andar. No interfone a voz de uma criança:

- Moço, tem roupa ou brinquedo pra me dar?

Poxa! Tudo que eu queria era ter um brinquedo!

Não tinha. Fui ao armário. Essa camisa não, essa outra é de estimação, essa aqui e essa. Peguei as duas camisas e fui à janela. A mãe, sentada na calçada, cara mirrada, cansada, sustentada pelos antebraços e as mãos.

Assoviei. Nem percebeu. Fiz psiu. Atendeu. Olhou pra mim, mostrei as roupas. Os olhos da mulher quase saíram pra fora. Há quanto tempo eles estarão pedindo? Quanto terão recebido?

Joguei as camisas.

- Brigado. Deus lhe pague. Deus lhe dê em dobro.

- Amém, nós todos. Vai com Deus.

Quando fui fechar a janela, minhas mãos, arredias, não conseguiram. Como pude ser tão duro. Tão obtuso!

Sai à caça de um brinquedo. Desarrumei gavetas, abri armários, olhei debaixo das camas. Minha casa não tem mais segredos. Minha casa não tem mais brinquedos.

Tremendo de vergonha, fui ao guarda-roupa. Peguei duas boas camisas de manga cumprida. O inverno na Serra é rígido. Chateado e sem brinquedo, corri à janela.

Uma casa acima do meu prédio, lá estavam, mulher e filha. Um menino já corria até a esquina. Chamei de novo. Seus olhos pareciam não acreditar.

Esperei que chegasse mais perto. Mandei as roupas ao coração dela, como um pedido arrependido de desculpas.

Meus olhos lagrimejavam primavera. Oposto do inverno que agora nos assola. Um choro de não ter brinquedo. Dor de não ter dado menos do que podia e não mais do que devia.

Lá estavam retratados todos nossos medos. Num sábado à tarde, quinze horas, fim dos raios quentes do sol do inverno. Meu creme de açaí. A voz de criança pedindo roupa e brinquedo. Creme e coração de gelo. Olhos desesperados. Nosso erro escancarado. A nossa rica violência.

A menina me olhou com olhos vivos. A menina não sorriu pra mim. Ela sorriu assim, de satisfeita. Fiquei me perguntando o que será que ela ganhou na quinta e o que será que ela ganhou na sexta.

Poxa! Tudo que eu queria era ter um brinquedo!

sábado, 13 de março de 2010

Entendimento

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Quando no repente gotas em oceano espalham, percebo presença, vento, vela e disparate. Voltou o ar, soprou vento.

O eterno de gostar é cata-vento.


Meu amor em conta-gotas não dá conta do oceano.


Tanta onda no meu peito.

Maré no quebra-mar.


A tarde passa devagar por causa da esperança. O vento abre as velas da embarcação.


Tempo sem vazão e sem partida. Calmaria. Nem se sabe nem se não.


Desata os nós, recolhe âncoras, encalha.


Um rio procura foz e não represa.


Melhor ser do que estar.


Não me resta o que será, resta o adiante.

Tudo assim sempre acaba em nada.

Nenhum barco se preza.


Medo é mar.


Nunca amar.

terça-feira, 9 de março de 2010

De fini tivo

Uma presença já me deu muitas coisas boas. Uma presença já foi mais que o bom.

Hoje, essa presença causa um sentimento ruim. Essa presença esperança.

Então melhor morrer. Não pode ser a última (antes ela do que eu).

Respirar é bom. É melhor quando o ar é limpo. Sem ácaro e sem fantasia.

Embora sem máscaras, esse carnaval sufocava meu coração no confete.

Todas as cores podem reluzir, menos as que não refletem. Meu refletir era bruma cinza, estremecida, imagem tremida.

Toda cor um medo e sempre despedida.

Não traço tratos com o trágico. Todo dia a lua respira no fim.

O meu amor é frágil.

O anel que tu não me destes, não era vidro, nem se quebrou. Amor não tinha. Consumou.

O que vivi, agora retrato, reencontro num sertão de rastros. O que senti, pra mim, muito mais que poesia. Coisa viva.

Mas nada cresce de um só lado. Nada vive sem contrapartida. Sem regar a palavra flor, nenhuma semente cresce texto e vira vida.

Nem luz se reflete colorida...

O amor negado é como lua, escondida a dois paços: num movimento é revelado.

Meu coração não pode nessa batida. Não faz música. Na relação entre eu e meu coração, não cabe hipocrisia.

A paz é um laço se fazendo em pedaços, nos gestos de um teatro que revela a saída.

Fingir é uma arte. Pra si mesmo, desastre.

As formas no céu - as nuvens - voltam a ser só imaginações livres.

Melhor sentir o sol no nascer que imaginar a brisa.

Alma inteira e viva.

Definitiva.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Nascer do sol em Caraíva

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O que trama e turva na paisagem é o olhar, quando as cores se dissolvem com a luz.

Quando as nuvens se colorem e anunciam o sol.

Nossas dores dégradés emergem do nosso silêncio – ou de nossas vozes (do espanto).

O que as brumas anunciam quando o mar grita, o que nem se esconde tampouco vem de longe, a própria vida.

Vem da chama. Anuncia o novo todo dia.


(Já o medo é esse estranho mar que agride as margens)


Desponta do céu de Caraíva a despedida, o último dia, derradeiro como tudo.

O horizonte espalha a paisagem e o mar canta sua rítmica canção de eternidade.

A alteridade do momento fixa os sentidos, entre a tola imensidão de pensamentos.

O que ficou inteiro restou das minhas partes. Na intransigência do momento, cada recorte um lapso, cada retalho insurgência de sentir.

A luz explodiu em rasgos e rastros. O céu se desfez em confetes num carnaval de mim.

Sangra em cores todo amanhecer, enquanto minha alma singra o mar que se espanta.

O brilho intenso da morte que o tempo sorrateiro transforma em saudade.

O sol se levanta, o amarelo consome das marolas a dança.

Da beleza única costuro túnica. Recobrirá e dará alento.


O calor do movimento me abraça e se tudo passa eu melhor invento.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Certidão de nascimento



Maleta. Tomar umas cervejas, jogar conversa fora. Centro da cidade. Nossos centros sem saber se deslocam. O futuro é pedra pouco lapidada e torta. A dureza dos rostos secos. Nossas distâncias, solidões e guetos.

Jéferson chegou vendendo bala. Sabe como é. Fugi. Saí de fino. Foi-se, bravo, o menino.

Davi chegou surgindo. Pediu dinheiro. Insistiu tossindo. Pediu comida. Pediu fundo.

Tudo existe e à tarde – já é tão tarde – e tudo triste. Definições em contraste. Prevaricação. Predicação. Amor tardio. Noite.

Devorava o prato. Atropelava comida. Mastigava palavras de alegria. Cantava e sem querer sorria. Falava e comia.

Os opostos. Fome de atenção. Contrapostos. “A vida que podia ter sido e não foi./Tosse, tosse, tosse.”

Tinha seis no máximo. Mentiu que tinha oito sem me olhar no rosto.

Estrelas violetas contra um fundo branco que resiste. A prata convertida em cinzas. Pó. Suor metal. Sal. Sujeira e limbo.

Queria. Menino quer. Eu quis. Deu gosto dar o que pedia.

Nuvem. Chuva ou orvalho – que importa? Só a madrugada compreende que o sol é coisa morta. Cinza de lareira, lar em desarticulação. Fragma. Pedaços que nunca mais se juntam (se é que estiveram presos um dia). Correntes que desatam. Torrentes. Covardias.

Demos o dinheiro. Saiu correndo. Voltou. Pincel, tinta guache e pedindo folha.

Arco menos íris e mais fosco. Cores frias de Osíris. Gelo. Meio dia turvo, meio sem metade. Pouco tácito saudade.

Combinamos de não sujar a mesa. Fez cara de ranzinza. Rasgou folha pra limpar o pincel. Não me deu a mínima.

Um trago ao que nada importa. Bebida em bafo quente. Hálito sentido. Boca. Língua. Trago urgente. Beijo em pessoa-porta.

Ficou transformando bar em céu. Absorvendo aquele momento mínimo. Perguntava se o rio era vermelho ou rosa. Tinha apenas quatro cores. Muita prosa.

Quase. Uma página se consome em linhas que se entortam. Signos. Um zodíaco em itálicos, riscos baixos, rabiscos em caixas-altas onde se ignoram.

Jéferson voltou. Fez estranheza. Davi pintando naquela mesa.

Quem te deu?

Fez que nem ligou.

Deixa eu pintar também?

Você não tem tinta!

Ô Davi, deixa que ele pinta.

Ele não tem pincel!

Vô ganhá um dinheiro ali e compro um.

Onde você comprou?

Quanto custa?

Deixa o chiclete aí. Toma.

Poesia-vício. Falta. Ilusões que se denotam. Nada carregado. Chuva. É chuva indiferente. Seca. Sertão de notas. Silêncio de areia e vidro e espelhos e reflexos quebrados. Azar de sete séculos. Culpa usurpa e sempre nossa.

Demos o dinheiro. Saiu correndo. Voltou. Pincel na mão e pedindo folha.

Sujo. Nu e molhado. Expurgo infecto de machucados. Não se brota. De nota nada de troca denota a falha falsa de fala torta. Calvo e desdentado. Sangue. Choro de recém-nascido, desespero. Dor, revolta.

Por um momento tudo esquecimento. Dois meninos brincando cores.

Nunca. Agora a vida é norma. Chuva. Folha leve que desbota. Tinta alucinógena. Nada que aparenta amanhã me traz de volta.

Jéferson foi vender chicletes. Davi foi fazer dinheiro. Sumiram correndo.

Sereno ou chuva ou meio ou tarde ou dia encarde. Somos feitos paisagem. Tudo resiste lorota.

Ficaram os desenhos. Daqueles que pediam se esquecendo.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Troca de instantes


Tive um amor daqueles mais intensos e menos esperados. Um amor que aconteceu da melhor forma: um susto daqueles, encontro encantado.

Aconteceu de nos encalacrarmos. Alegria de descobertas e corpos, liberalidade sem remorsos. Meu amor, antes apagado, sorria vivo, escancarado.

Durou o tempo da imensurável intensidade. Foi mais e foi amor, mais que duas partes em metades.

Depois foi sombra de sol de fim de tarde. Entre momentos da vida, entre conflitos de instantes, o amor de relance desviou-se. Sem ser traído, foi trocado.

Em meus apegos, sacudido. Em lapsos de egoísmo, desarmado. Coração um farto fardo no batente. O amor se compreende nos lapsos, consciente nos atos, intermitente.

Num intento de vontade, desvencilhou-se do meu peito, em outro seio aconchegado.

Meu amor se apaixonou por si mesma. Reencontrou-se, recatada, reencantada. E eu, que pouco antes havia, entendi. Não posso nada além do gesto de sorrir.

Quando em vez pensando, tento entender o porquê, nem saudade de tudo que entre nós foi e ainda arde? Se não fixei memória, se daquele lado nada bate...

E eis que vem a mim a melhor lição, o melhor gosto, a melhor história: meu amor, agora, não pode sentir por mim, por nós, por qualquer coisa menos amistosa.

Pois o meu amor há tanto tempo fora, voltou pro seu peito casa, fez morada, arrumou a cama e mata toda a saudade de si mesma, em lua de mel com sua alma. Redescobre siamesa, refaz seus próprios votos de amizade.

A duração desse romance, eu espero, nunca acabe. Eu já me apaixonei por essa pessoa, sei que a concorrência no momento é brava. O que ela redescobre me encantou de cara. Contra isso, não quero nada.

Quando essa paixão se assentar amor, pra fixar no tempo superfície válida, pode essa paixão prescrever outros sentimentos. Uma vez contento, semear no vento.

Quando o espelho refletir a sua especial idade, pode ser que abra a janela, sentir o sol lá fora com muito mais intensidade. Nesse dia, pode ser que outra vida - quem sabe a minha? – por lá passe.

Esse fruto amadurece e prepara o mais doce amor que ainda não chegara. De vontade e de verdade se reveste, pra melhor saboreada.

Meu amor não é ponto de partida e nem chegada. É toda ela: é tudo ou nada.

Doa a dor


Um dia cismei que ia doar os meus livros. Não fazia sentido. A estante ficou feia, cheia de imobilismo.


Freqüento muito a biblioteca pública, praça da liberdade. Pego emprestados muitos livros, pesquiso em todos os arquivos. Minha alegria e minha vida.

Meus livros estavam parados. Lidos ou não, acumulando poeira e espaços.

Quando resolvi doá-los, nos atos, quantos fados.

Tinha de livro empoeirado mais de duzentos! Doei alguns pra biblioteca pública lá da praça. Até hoje, tenho essa satisfação e essa graça: volta e meia vejo um livro na estante e reconheço a dobra, conheço aquele amasso de página. Refaz-se um laço.

Os livros estão lá, em trânsito, nunca parados, sujos por empoeirados. Uma alegria!

Outra vez, foi com o Harry Potter. Li todos, vorazmente, livros emprestados pela biblioteca. Cheguei no sexto. Queria ler de qualquer jeito!

Lá só tinham dois. Entrei na fila

Um parêntese pra mudar e ficar no assunto. Comentei isso com minha mãe que não conseguia pegar o livro e tal. O embaraço é esse: mãe é mãe, em qualquer tempo ou idade. Não há maior apreço.

Comprou o livro pra mim. Ganhei o melhor presente do momento. Li rapidamente.

Já tava nessa onda de doar. Fui lá.

Cheguei na biblioteca pública. Aquelas meninas ótimas, recepcionistas: “em que posso ajudar”? Ai eu disse: hoje quem vai ajudar vocês sou eu.

Tirei o livro novinho, só eu tinha lido. Agora a biblioteca ia ter três! As atendentes encheram os olhos d’água. Foi bonito. Satisfação de ação válida.

Outra coisa bacana foi escolher os livros pra doar. Esse tem a cara de fulano, esse de cicrano, esse do Chiquim! Ia nas festas, nos bares, sempre carregado de presente.

Amigo surpreendido, surpresa boa. Mas o melhor é coisa que voa, Bate assas no tempo e depois aparece e de novo avoa.

O melhor do acontecido era o depois. Ali fazia vivo. Ali onde refoi.

Os amigos liam, adoravam, eu acertava a mão. Livros certos foram lidos por pessoas exatas. E gostaram. A melhor repercussão.

Outra feita, outra colheita, doei meu livros pra Paraíba. Um bom amigo, José Paulo, radialista e difusor de cultura. Ele já tinha todo esquema distributivo. lugares, escolas, onde se não.

Mandei livros. Colhi satisfação.

O Zé Paulo fez o favor de encaminhar um email e derreter meu coração. No agradecimento recebido, de aberto peito meigo, nunca agradeci tanto às minas lágrimas, por tornarem aquele momento inteiro

Frases que limparam a estante empoeirada, promovendo meu sossego.