quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

As duas meninas de Cláudio (*município de Cláudio-MG)

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Vovô Bina veio do Líbano, fugindo da guerra, passando novinha pela França e chegando, ainda adolescente, ao Brasil. Foi morar em Cláudio, no interior de Minas, perto de Divinópolis, onde até hoje existe a Fundição Libanesa, muitos primos e parentes pela cidade e região. Lá nasceu tia Helena, irmã de Tesbina que, claro, sempre foi bem mais nova que vovó.

Pois bem, conto-lhes isso tudo pra contar, na verdade, uma outra coisa. Tinha eu 18 anos e estava indo passar a Semana Santa em Cláudio, 40 dias depois do carnaval que também passei por lá. Fui, antes de pegar o ônibus na rodoviária, almoçar com minha vó e tia Helena na casa de Dona Bina. 

Comida maravilhosa, conversa muito boa, tia Helena pega na minha mão e pergunta: “Você foi pra Cláudio no carnaval e agora tá voltando na semana santa”? Vovó já me dá uma encarada daquelas que nem se precisa dizer a pergunta.


Fingi de desentendido. Respondi que sim, que ia muito pra lá, que gostava, tinha amigos, falei dos primos e dos parentes, et cétera. Adiantou nada. Tia Helena já mandou, assim que teve oportunidade: “arrumou namorada lá”?

Eu ri, disse que não, brinquei um “quem sabe”? Hum, pra quê!

Desbarataram a dizer pra eu tomar cuidado, que isso não era brincadeira, que era coisa séria e que era pra eu tomar cuidado com as meninas de Cláudio.

Opa! Sai do meu torpor de encantamento de ver aquelas duas naquele carinho e preocupação todo, aquela felicidade de casa de vó, e mandei de primeira, pra minha tia-avó:


- Por quê, tia Helena? Que eu saiba, vocês duas foram meninas de Cláudio, uai.

Duas senhorinhas de estupefactas passaram a vermelhas, dando risinhos nervosos, sem saber o que fazer. Vovó levantou, pegou um prato, tia Helena rapidamente a imitou, limparam a mesa, foram pra cozinha e voltaram com um doce de leite e queijo e café – e outro assunto.



A saudade é um doce de leite com queijo e café e duas meninas de Cláudio...

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

15 de novembro

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Hoje, 15 de novembro, vou terminar de ler o 1889, do Laurentino Gomes. Leitura difícil, não pela qualidade do livro, muito bem escrito pelo autor, tão bom quanto o 1808 e o 1822 mas, sim, pela história do Brasil narrada naquele momento do golpe institucional que resultou na queda da monarquia. 

Um golpe militar que, aliado às oligarquias conservadoras e retrógradas do país, inspirados em Augusto Comte e seu positivismo que, simplesmente, despreza o povo, que, segundo esses "pensadores", é um ser passivo, ingênuo e ignorante que necessita de uma elite dominante e supostamente sábia para guiá-lo das trevas em que vive (a desordem) à luz (o progresso). É tudo muito duro de engolir e digerir.

Atirou o país praticamente numa república oligárquica onde os ricos proprietários se alternavam no poder à mercê da vontade e dos interesses do povo, esse ser, também para tal "elite", ignorante e desprezível. "Greve é caso de polícia", já dizia um dos presidentes desse primeiro período da República.

O que mais enoja é perceber que o golpe militar de 1964, que teve ajuda dos EUA e do chamado "capital associado", ainda com resquícios e influências (tardias e anacrônicas) do positivismo de Comte, inspirou-se nas mesmas prerrogativas de desprezo pelo povo e pelos pobres. O mesmo preconceito arraigou-se em parte da elite, que continuou achando-se intelectualmente superior aos demais brasileiros e que, enquanto o poder emanar do povo e para o povo, as coisas estarão fora do lugar. Foram mais de 20 anos de "eu prendo, eu arrebento"...

Duro mesmo é perceber que, ainda hoje, idéias que já eram anacrônicas no final do século XIX permaneçam, com tanta força e agora escancaradas por alguns dos filhos dessa elite golpista e antidemocrática, em pleno século XXI... E ainda se consideram elite intelectual - e ainda desprezam (ou simplesmente ignoram) a força, a gana, sagacidade e inteligência do povo brasileiro.

==> De qualquer forma, recomendo a leitura do livro, complementada pelos livros do José Murilo de Carvalho (Os Bestializados e A Formação das Almas) e, claro, do Raimundo Faoro (Os donos do Poder).


domingo, 22 de setembro de 2013

Corações contra a parede

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Uma tarde saindo de casa. O tempo arde e já é tarde.

Dobro a esquina, gritaria na rua, cenas de bairro: uma senhora no ponto e uma algazarra do outro lado da rua. Cheguei perto.

“ Aí não vai pro centro não, só vai pro bairro” - gritava o senhor esforçado.

Percebi que a senhorinha, no ponto, era cega. “Tem que pegar em outro ponto”, berrava a moça bem-intencionada.

Pensei comigo: que mania do povo achar que cego é surdo!

Perguntei o que estava acontecendo aos dois. Explicaram o caso, sem gritar muito, por sorte. Falei que ia levar a senhora até o ponto. A moça perguntou: “você tá indo pra lá”?

Agora eu tô.

Atravessei a rua, expliquei baixinho pra doninha que ela estava no ponto errado se ela queria chegar ao centro. Ofereci pra levar ela ao ponto. Dei o braço, agradeceu. Fomos.

Meu coração um pouco preocupado, um pouco satisfeito. Pelo menos levo a senhora no ponto e espero o ônibus. Pelo menos, um artefato.

A senhora contou os males de sua vida. Contou que sozinha e sentida, procurava um lugar pra morar por ali. Se eu não sabia de qualquer coisa. Sede de qualquer vazão.

A tristeza é uma sombra que espanca o baque do coração. A tristeza é o senão, que invade a tarde. A resposta é um vão, que não encontra beleza no reflexo. Mas a alegria ainda batia e rebatia, eu fazia o que podia. Eu vivia a lívida ilusão.

Morava sozinha na pensão. Tantos dinheiros por dia. Conta rápida, pensão batida. Sem dinheiro, dizia, não conseguia.

Como não revelar nos passos o que não se traduzia? Senhorinha, no meio do bairro, sozinha... como lidar com essa tristeza antecipada toda de tão todo e toda minha? Como explicar pra essa cidade que se perece quando a míngua deixa soltos esses pedaços, essas pessoinhas...?

“Eu tive um problema na perna”... ela usava mesmo uma bengala. “Não consegui trabalhar no mês passado. Minha pensão só deu pro aluguel, lá eles nem dão comida”...

Já sabia o que viria... Mundo devasso, importuno, imundo – e mil adjetivos que te marcam sem te escarnecer -, porque esse cálice da partilha? Esse cardo acochambrado, essa mesquinharia? Por que esse sim? Por que tantos nãos sem rebeldia?

Dei sorte. O ônibus chegou na hora em que chegamos no ponto. Mas a vida não é justa, tive que escutar de pronto: “O senhor não teria uma ajuda...”

Nada dói mais. A pouca caridade não isola. Em que mundo estamos, que jardim plantamos? O coração saiu pela face e ninguém no ônibus entendeu o fato. Espantos estancados. Alheios, assustados demais ao sensível.

O que aquela senhorinha fazia ali sozinha, perdida, no meio de um bairro desconhecido? Que mundo horrível! Por que aquela senhorinha ali... pedia? Quem a esqueceu? O que ela esquecia?

Não deu tempo nem de falar do que não tinha. Foi-se o ônibus, fiquei a míngua. Pensando se essa tristeza é só minha. Se é só meu coração que falha.

Se só eu. Se só lágrima. Se nada...
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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Um texto de Rubem Alves


AS RAZÕES DO AMOR
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"Os místicos e os apaixonados concordam em que o amor não tem razões. Angelus Silésius, místico medieval, disse que ele é como a rosa : "A rosa não tem"porquês". Ela floresce porque floresce." Drummond repetiu a mesma coisa no seu poema As Sem-Razões do Amor. É possível que ele tenha se inspirado nestes versos mesmo sem nunca os ter lido, pois as coisas do amor circulam com o vento.

"Eu te amo porque te amo..." - sem razões... "Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo." Meu amor independe do que me fazes. Não cresce do que me dás. Se fosse assim ele flutuaria ao sabor dos teus gestos. Teria razões e explicações. Se um dia teus
gestos de amante me faltassem, ele morreria como a flor arrancada da terra. "Amor é estado de graça e com amor não se paga." Nada mais falso do que o ditado popular que afirma que "amor com amor se paga". O amor não é regido pela lógica das trocas comerciais. Nada te devo. Nada me deves. Como a rosa que floresce porque floresce, eu te amo porque te amo.

"Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a
regulamentos vários... Amor não se troca... Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo..." Drummond tinha de estar apaixonado ao escrever estes versos. Só os apaixonados acreditam que o amor seja assim, tão sem razões. Mas eu, talvez por não estar apaixonado (o que é uma pena...), suspeito que o coração tenha regulamentos e dicionários, e Pascal me apoiaria, pois foi ele quem disse que "o coração tem razões que a própria razão desconhece". Não é que
faltem razões ao coração, mas que suas razões estão escritas numa língua que desconhecemos.
Destas razões escritas em língua estranha o próprio Drummond tinha conhecimento, e se perguntava: "Como decifrar pictogramas de há 10 mil anos se nem sei decifrar minha escrita interior? A verdade essencial é o desconhecido que me habita e a cada amanhecer me dá um soco." O amor será isto: um soco que o desconhecido me dá?

Ao apaixonado a decifração desta língua está proibida, pois se ele a entender, o amor se irá. Como na história de Barba Azul: se a porta proibida for aberta, a felicidade estará perdida. Foi assim que o paraíso se perdeu: quando o amor - frágil bolha de sabão - não contente com sua felicidade inconsciente, se deixou morder pelo desejo de saber. O amor não sabia que sua felicidade só pode existir na ignorância das suas razões. Kierkegaard comentava o absurdo de se pedir aos amantes explicações para o seu amor. A esta pergunta eles só possuem uma resposta: o silêncio. Mas que se lhes peça simplesmente falar sobre o seu amor - sem explicar. E eles falarão por dias, sem parar... Mas - eu já disse - não estou apaixonado. Olho para o amor com olhos de suspeita, curiosos. Quero decifrar sua língua desconhecida. Procuro, ao contrário do Drummond, as cem razões do amor...

Vou a Santo Agostinho, em busca de sua sabedoria. Releio as Confissões, texto de um velho que meditava sobre o amor sem estar apaixonado. Possivelmente aí se encontre a análise mais penetrante das razões do amor jamais escrita. E me defronto com a pergunta que nenhum apaixonado poderia jamais fazer: "Que é que eu amo quando amo o meu Deus?" Imaginem que um apaixonado fizesse essa pergunta à sua amada: "Que é que eu amo quando te amo?" Seria, talvez, o fim de uma estória de amor. Pois esta pergunta revela um segredo que nenhum amante pode suportar: que ao amar a amada o amante está amando uma outra coisa que não é ela. Nas
palavras de Hermann Hesse, "o que amamos é sempre um símbolo". Daí, conclui ele, a impossibilidade de fixar o seu amor em qualquer coisa sobre a terra..."

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Resposta ao meu eterno e querido professor

Esse texto é um email em resposta ao texto do meu querido professor Eduardo Machado, que pode ser lido aqui: http://eduardomachadobh.blogspot.com.br/2012/08/fe-particula-de-deus.html


Sabe, Eduardo, lendo e relendo sua crônica e, assim, me emocionando mais e mais, queria te dizer o seguinte:

Hoje em dia cheguei a um entendimento de Deus, do Mistério, de todas as coisas, que eu vejo - sensível - no seu texto. 

Eu pratico o Budismo há algum tempo, mas sempre tive o entendimento de que tudo é a mesma coisa no fim, divergindo nos meios. Cresci num meio bom, terreno fértil e por isso colho frutos no Budismo: a mesma procura, a mesma entrega, a mesma compaixão. Mudou-se apenas o meio, o fim é o Absoluto, ou como se queira chamar. Não creio que Deus tenha dessas preferências.

Pois bem, meu entendimento atual é de que Deus é... o próximo. Seu espírito é a compaixão. 

Colando Deus na Iluminação, Deus é o momento: ele dá o aqui e agora pra fazer o que quiser. Você pode invocar a presença Dele. Simplesmente. Nos mais corriqueiros atos do dia a dia, como no caminho da padaria que você descreve no texto. Ali, no sorriso da vizinha correspondido, numa gentileza na fila do caixa, num sorriso pra balconista na hora do troco. Ou em atos maiores. Ou em quaisquer outras oportunidades de se fazer uma coisa boa, visando o bem, para todos, sem exceção e com plena entrega. 

Uma tradição bonita e um bom exemplo: por tradição, no Budismo Tibetano, a cada ação positiva realizada, seja um gesto, uma caridade, um trabalho bem feito, você dedica os méritos gerados naquela ação ao bem-estar de todos os seres. 

Acredito imensamente nessa interdependência entre todas as coisas. Porque, pra completar a tríade, os filhos somos nós. Nossa família, a humanidade, com muitos  primos e parentes distantes. Porque nossos irmãos estão próximos. Um vivendo para o outro (o um e o todo, o todo e o um), eis a presença de Deus.

Assim está a minha fé. E a fé, aquele salto no escuro: mas eu sei que Ele está lá.

Um grande abraço,

Sérgio Mitre

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Torcida única: falência social

Insisto nesse assunto, pois é um problema maior e muito mais sério. O fato de ninguém se indignar, de não haver protestos mais veementes, só mostra que nós aceitamos sermos tratados assim, como animais. Eu não aceito!

Quanto mais transformarem por gestos e/ou atitudes coisas normais - como duas torcidas adversárias irem ao mesmo jogo de futebol - como absurdas e incontroláveis, pior fica a nossa sociedade. Sinaliza para todos, cidadãos de bem e tb para os maus-elementos, que o normal é a violência, qdo esta deveria ser a exceção; que o normal é a guerra entre torcidas, qdo deveria ser a paz e a boa convivência (a guerra e a violência deveriam - e são, na minha concepção - fatos isolados, exceções, nunca a regra).

É disso q se trata: a violência foi transformada em regra e oficializada - e, pq não?, legitimada - pelos órgãos de segurança

Esse é o péssimo exemplo que o poder público dá a todos nós. É como ele enxerga a nossa sociedade, é como o poder público nos enxerga e demonstra o q ele espera de nós, enquanto cidadãos: irracionalidade, bestialidade, incapacidade de convivência.

A proibição assume essa situação e ainda sinaliza q a única maneira de controlar essa bestial e incontrolável população de BH é proibindo, colocando de castigo, nos tratando igual à crianças (mimadas).

Não me interessa muito o q o poder público tem ou teria q fazer. O que me indigna de verdade é q o PODER PÚBLICO NAO PODE SE ISENTAR DE FAZER O QUE LHE É DEVIDO, como garantir a segurança da população - além, é claro, de governar para q nossa sociedade melhore e progrida. Essa atitude de torcida única nos diz q se estamos mal, nem adianta nada, só vai piorar, então não há remédio: atitudes, só extremas, autoritárias e desprezando nossa capacidade enquanto seres humanos.

"Nós não somos bichos, nós não somos animais/Nós não somos bestas selvagens" - Gonzaguinha

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O Coelho e o crítico inglês


Texto escrito devido à seguinte crítica, propagada pelas redes sociais: http://www.cartacapital.com.br/cultura/critico-britanico-detona-paulo-coelho-apos-provocacao-a-ulysses-de-james-joyce/

Um problema muito sério, um verdadeiro drama psicológico-patriótico do nosso povo é esse complexo de vira-lata que assola a todos nós, brasileiros. Quem é o crítico britânico? Qual a importância dele para a literatura mundial? Por que a opinião dele é levada e consideração? Eu mesmo respondo: só porque detona um escritor brasileiro. Ele ganha muita credibilidade...


Paulo Coelho é um escritor reconhecido internacionalmente, entre outras instituições, a Academia de Letras da França (onde ganhou até prêmio cobiçado por diversos autores em todo o mundo). Um best-seller no Brasil, um país onde a média de leitura é de 1 livro por ano e o hábito de ler, pouco praticado. Autor de muitos livros, todos muito lidos.


Li poucos livros dele e só os mais antigos. Lembro-me de ter lido "O Alquimista" na adolescência e de ter gostado imensamente. Foi um livro de leitura fácil, história simples e envolvente e que, se não é uma obra prima da literatura mundial, tal como Joyce ou Guimarães Rosa, foi um livro e um autor que contribuíram para que eu tomasse gosto pela leitura e pela literatura - e hoje sou um leitor voraz e me arrisco na arte da poesia.

Quem diz que o Paulo Coelho nasceu pra pano de chão, não deve saber bem a diferença do que é um pano de prato. Quantos livros esse povo leu para formatar essa comparação? E quantos críticos e críticas literárias eles conhecem para corroborar assim, de pronto, o primeiro crítico que ganhou destaque detonando um escritor internacionalmente famoso?

Paulo Coelho tem razão em dizer que ao desfazerem dele desfazem também de seus leitores. É verdade, com um detalhe: ele tem milhares de leitores. Despreza-se gente demais, não?


Quanto ao Ulisses, do Joyce, acho chatíssimo e nunca consegui ler. Muito difícil pra mim ainda. Por isso, concordo com a crítica do Coelho em parte: é praticamente um tributo ao estilo, consagrado pelo próprio Joyce. Mas isso é só minha opinião, tal qual à do Paulo Coelho. Frente à genialidade da obra do Joyce, opiniões sobre esse ou aquele aspecto de sua obra ou livro seu, significam muito pouco ou quase nada. Paulo Coelho sabe disso, só emitiu um ponto de vista.

Há quem critique o Joyce, ainda, em outro aspecto da sua obra (e da sua grandeza): depois de consagrado o estilo, todo romancista do século XX foi assombrado por Ulisses, todos foram comparados à Joyce, todos se preocuparam e muitos se limitaram só para "parecer" Joyce...

Criticam muito o Coelho na medida inversa à qual elogiam o Joyce: dizem que um é simplório e, o outro, sofisticado. Na minha opinião, não é só porque é de leitura agradável e de temas mais superficiais (embora eu não considere assim) que automaticamente se torna simplório - olha aí o Dan Brown enchendo as burras de dinheiro só porque criou um estilo fácil e dinâmico, que se repete em todos os seus livros. E isso não é demérito nenhum, pelo contrário: cada escritor com sua importância, seu lugar e relevância na história e no universo da literatura.

Livros foram feitos para serem lidos, não idolatrados. Pra isso, para que se consiga ler os livros clássicos da literatura, com tudo o que os envolve além do conteúdo, como estilo, autor, momento histórico da obra e todos os et céteras, há que se tomar gosto, preciso é o hábito da leitura, seu deleite. É imperativo ter prazer. O livro não pode ir além do que pode oferecer o leitor, com riscos enormes para o futuro do leitor – ou sua destruição.

Se eu quisesse incentivar uma criança ou um adolescente à prática da leitura, indicaria a eles, principalmente se já dominados pela televisão, onde todas as imagens já lhe são dadas e o pensar é desestimulado, livros de maior simplicidade, tanto temática quanto estilística. Indicaria livros fáceis de ler. Indicaria Paulo Coelho, com seus livros simples, mas nunca simplórios e seus temas menos complexos, mas nunca superficiais.


Desfazer do Paulo Coelho e de sua importância para a literatura brasileira, com os argumentos apresentados, é o mesmo que dizer que só porque tivemos Shakespeare não podemos ter um Bernard Cowell, um escritor inglês, de romances históricos de temas fáceis, livros populares e deliciosos. Ou que, só porque tivemos um Guimarães Rosa, não podemos perceber a importância de um Jorge Amado. Ou só porque tivemos poetas concretistas geniais, eu não pudesse existir, tentando viver com minha poesia simples.