sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Resposta ao meu eterno e querido professor

Esse texto é um email em resposta ao texto do meu querido professor Eduardo Machado, que pode ser lido aqui: http://eduardomachadobh.blogspot.com.br/2012/08/fe-particula-de-deus.html


Sabe, Eduardo, lendo e relendo sua crônica e, assim, me emocionando mais e mais, queria te dizer o seguinte:

Hoje em dia cheguei a um entendimento de Deus, do Mistério, de todas as coisas, que eu vejo - sensível - no seu texto. 

Eu pratico o Budismo há algum tempo, mas sempre tive o entendimento de que tudo é a mesma coisa no fim, divergindo nos meios. Cresci num meio bom, terreno fértil e por isso colho frutos no Budismo: a mesma procura, a mesma entrega, a mesma compaixão. Mudou-se apenas o meio, o fim é o Absoluto, ou como se queira chamar. Não creio que Deus tenha dessas preferências.

Pois bem, meu entendimento atual é de que Deus é... o próximo. Seu espírito é a compaixão. 

Colando Deus na Iluminação, Deus é o momento: ele dá o aqui e agora pra fazer o que quiser. Você pode invocar a presença Dele. Simplesmente. Nos mais corriqueiros atos do dia a dia, como no caminho da padaria que você descreve no texto. Ali, no sorriso da vizinha correspondido, numa gentileza na fila do caixa, num sorriso pra balconista na hora do troco. Ou em atos maiores. Ou em quaisquer outras oportunidades de se fazer uma coisa boa, visando o bem, para todos, sem exceção e com plena entrega. 

Uma tradição bonita e um bom exemplo: por tradição, no Budismo Tibetano, a cada ação positiva realizada, seja um gesto, uma caridade, um trabalho bem feito, você dedica os méritos gerados naquela ação ao bem-estar de todos os seres. 

Acredito imensamente nessa interdependência entre todas as coisas. Porque, pra completar a tríade, os filhos somos nós. Nossa família, a humanidade, com muitos  primos e parentes distantes. Porque nossos irmãos estão próximos. Um vivendo para o outro (o um e o todo, o todo e o um), eis a presença de Deus.

Assim está a minha fé. E a fé, aquele salto no escuro: mas eu sei que Ele está lá.

Um grande abraço,

Sérgio Mitre

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Torcida única: falência social

Insisto nesse assunto, pois é um problema maior e muito mais sério. O fato de ninguém se indignar, de não haver protestos mais veementes, só mostra que nós aceitamos sermos tratados assim, como animais. Eu não aceito!

Quanto mais transformarem por gestos e/ou atitudes coisas normais - como duas torcidas adversárias irem ao mesmo jogo de futebol - como absurdas e incontroláveis, pior fica a nossa sociedade. Sinaliza para todos, cidadãos de bem e tb para os maus-elementos, que o normal é a violência, qdo esta deveria ser a exceção; que o normal é a guerra entre torcidas, qdo deveria ser a paz e a boa convivência (a guerra e a violência deveriam - e são, na minha concepção - fatos isolados, exceções, nunca a regra).

É disso q se trata: a violência foi transformada em regra e oficializada - e, pq não?, legitimada - pelos órgãos de segurança

Esse é o péssimo exemplo que o poder público dá a todos nós. É como ele enxerga a nossa sociedade, é como o poder público nos enxerga e demonstra o q ele espera de nós, enquanto cidadãos: irracionalidade, bestialidade, incapacidade de convivência.

A proibição assume essa situação e ainda sinaliza q a única maneira de controlar essa bestial e incontrolável população de BH é proibindo, colocando de castigo, nos tratando igual à crianças (mimadas).

Não me interessa muito o q o poder público tem ou teria q fazer. O que me indigna de verdade é q o PODER PÚBLICO NAO PODE SE ISENTAR DE FAZER O QUE LHE É DEVIDO, como garantir a segurança da população - além, é claro, de governar para q nossa sociedade melhore e progrida. Essa atitude de torcida única nos diz q se estamos mal, nem adianta nada, só vai piorar, então não há remédio: atitudes, só extremas, autoritárias e desprezando nossa capacidade enquanto seres humanos.

"Nós não somos bichos, nós não somos animais/Nós não somos bestas selvagens" - Gonzaguinha

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O Coelho e o crítico inglês


Texto escrito devido à seguinte crítica, propagada pelas redes sociais: http://www.cartacapital.com.br/cultura/critico-britanico-detona-paulo-coelho-apos-provocacao-a-ulysses-de-james-joyce/

Um problema muito sério, um verdadeiro drama psicológico-patriótico do nosso povo é esse complexo de vira-lata que assola a todos nós, brasileiros. Quem é o crítico britânico? Qual a importância dele para a literatura mundial? Por que a opinião dele é levada e consideração? Eu mesmo respondo: só porque detona um escritor brasileiro. Ele ganha muita credibilidade...


Paulo Coelho é um escritor reconhecido internacionalmente, entre outras instituições, a Academia de Letras da França (onde ganhou até prêmio cobiçado por diversos autores em todo o mundo). Um best-seller no Brasil, um país onde a média de leitura é de 1 livro por ano e o hábito de ler, pouco praticado. Autor de muitos livros, todos muito lidos.


Li poucos livros dele e só os mais antigos. Lembro-me de ter lido "O Alquimista" na adolescência e de ter gostado imensamente. Foi um livro de leitura fácil, história simples e envolvente e que, se não é uma obra prima da literatura mundial, tal como Joyce ou Guimarães Rosa, foi um livro e um autor que contribuíram para que eu tomasse gosto pela leitura e pela literatura - e hoje sou um leitor voraz e me arrisco na arte da poesia.

Quem diz que o Paulo Coelho nasceu pra pano de chão, não deve saber bem a diferença do que é um pano de prato. Quantos livros esse povo leu para formatar essa comparação? E quantos críticos e críticas literárias eles conhecem para corroborar assim, de pronto, o primeiro crítico que ganhou destaque detonando um escritor internacionalmente famoso?

Paulo Coelho tem razão em dizer que ao desfazerem dele desfazem também de seus leitores. É verdade, com um detalhe: ele tem milhares de leitores. Despreza-se gente demais, não?


Quanto ao Ulisses, do Joyce, acho chatíssimo e nunca consegui ler. Muito difícil pra mim ainda. Por isso, concordo com a crítica do Coelho em parte: é praticamente um tributo ao estilo, consagrado pelo próprio Joyce. Mas isso é só minha opinião, tal qual à do Paulo Coelho. Frente à genialidade da obra do Joyce, opiniões sobre esse ou aquele aspecto de sua obra ou livro seu, significam muito pouco ou quase nada. Paulo Coelho sabe disso, só emitiu um ponto de vista.

Há quem critique o Joyce, ainda, em outro aspecto da sua obra (e da sua grandeza): depois de consagrado o estilo, todo romancista do século XX foi assombrado por Ulisses, todos foram comparados à Joyce, todos se preocuparam e muitos se limitaram só para "parecer" Joyce...

Criticam muito o Coelho na medida inversa à qual elogiam o Joyce: dizem que um é simplório e, o outro, sofisticado. Na minha opinião, não é só porque é de leitura agradável e de temas mais superficiais (embora eu não considere assim) que automaticamente se torna simplório - olha aí o Dan Brown enchendo as burras de dinheiro só porque criou um estilo fácil e dinâmico, que se repete em todos os seus livros. E isso não é demérito nenhum, pelo contrário: cada escritor com sua importância, seu lugar e relevância na história e no universo da literatura.

Livros foram feitos para serem lidos, não idolatrados. Pra isso, para que se consiga ler os livros clássicos da literatura, com tudo o que os envolve além do conteúdo, como estilo, autor, momento histórico da obra e todos os et céteras, há que se tomar gosto, preciso é o hábito da leitura, seu deleite. É imperativo ter prazer. O livro não pode ir além do que pode oferecer o leitor, com riscos enormes para o futuro do leitor – ou sua destruição.

Se eu quisesse incentivar uma criança ou um adolescente à prática da leitura, indicaria a eles, principalmente se já dominados pela televisão, onde todas as imagens já lhe são dadas e o pensar é desestimulado, livros de maior simplicidade, tanto temática quanto estilística. Indicaria livros fáceis de ler. Indicaria Paulo Coelho, com seus livros simples, mas nunca simplórios e seus temas menos complexos, mas nunca superficiais.


Desfazer do Paulo Coelho e de sua importância para a literatura brasileira, com os argumentos apresentados, é o mesmo que dizer que só porque tivemos Shakespeare não podemos ter um Bernard Cowell, um escritor inglês, de romances históricos de temas fáceis, livros populares e deliciosos. Ou que, só porque tivemos um Guimarães Rosa, não podemos perceber a importância de um Jorge Amado. Ou só porque tivemos poetas concretistas geniais, eu não pudesse existir, tentando viver com minha poesia simples.