terça-feira, 16 de março de 2010

Sem segredos

.
.
.
Três da tarde de um sábado raro. Eu aqui, todo natureba, comendo creme de açaí pra substituir o almoço.

Toca a campainha no terceiro andar. No interfone a voz de uma criança:

- Moço, tem roupa ou brinquedo pra me dar?

Poxa! Tudo que eu queria era ter um brinquedo!

Não tinha. Fui ao armário. Essa camisa não, essa outra é de estimação, essa aqui e essa. Peguei as duas camisas e fui à janela. A mãe, sentada na calçada, cara mirrada, cansada, sustentada pelos antebraços e as mãos.

Assoviei. Nem percebeu. Fiz psiu. Atendeu. Olhou pra mim, mostrei as roupas. Os olhos da mulher quase saíram pra fora. Há quanto tempo eles estarão pedindo? Quanto terão recebido?

Joguei as camisas.

- Brigado. Deus lhe pague. Deus lhe dê em dobro.

- Amém, nós todos. Vai com Deus.

Quando fui fechar a janela, minhas mãos, arredias, não conseguiram. Como pude ser tão duro. Tão obtuso!

Sai à caça de um brinquedo. Desarrumei gavetas, abri armários, olhei debaixo das camas. Minha casa não tem mais segredos. Minha casa não tem mais brinquedos.

Tremendo de vergonha, fui ao guarda-roupa. Peguei duas boas camisas de manga cumprida. O inverno na Serra é rígido. Chateado e sem brinquedo, corri à janela.

Uma casa acima do meu prédio, lá estavam, mulher e filha. Um menino já corria até a esquina. Chamei de novo. Seus olhos pareciam não acreditar.

Esperei que chegasse mais perto. Mandei as roupas ao coração dela, como um pedido arrependido de desculpas.

Meus olhos lagrimejavam primavera. Oposto do inverno que agora nos assola. Um choro de não ter brinquedo. Dor de não ter dado menos do que podia e não mais do que devia.

Lá estavam retratados todos nossos medos. Num sábado à tarde, quinze horas, fim dos raios quentes do sol do inverno. Meu creme de açaí. A voz de criança pedindo roupa e brinquedo. Creme e coração de gelo. Olhos desesperados. Nosso erro escancarado. A nossa rica violência.

A menina me olhou com olhos vivos. A menina não sorriu pra mim. Ela sorriu assim, de satisfeita. Fiquei me perguntando o que será que ela ganhou na quinta e o que será que ela ganhou na sexta.

Poxa! Tudo que eu queria era ter um brinquedo!

sábado, 13 de março de 2010

Entendimento

.
.
.
.

Quando no repente gotas em oceano espalham, percebo presença, vento, vela e disparate. Voltou o ar, soprou vento.

O eterno de gostar é cata-vento.


Meu amor em conta-gotas não dá conta do oceano.


Tanta onda no meu peito.

Maré no quebra-mar.


A tarde passa devagar por causa da esperança. O vento abre as velas da embarcação.


Tempo sem vazão e sem partida. Calmaria. Nem se sabe nem se não.


Desata os nós, recolhe âncoras, encalha.


Um rio procura foz e não represa.


Melhor ser do que estar.


Não me resta o que será, resta o adiante.

Tudo assim sempre acaba em nada.

Nenhum barco se preza.


Medo é mar.


Nunca amar.

terça-feira, 9 de março de 2010

De fini tivo

Uma presença já me deu muitas coisas boas. Uma presença já foi mais que o bom.

Hoje, essa presença causa um sentimento ruim. Essa presença esperança.

Então melhor morrer. Não pode ser a última (antes ela do que eu).

Respirar é bom. É melhor quando o ar é limpo. Sem ácaro e sem fantasia.

Embora sem máscaras, esse carnaval sufocava meu coração no confete.

Todas as cores podem reluzir, menos as que não refletem. Meu refletir era bruma cinza, estremecida, imagem tremida.

Toda cor um medo e sempre despedida.

Não traço tratos com o trágico. Todo dia a lua respira no fim.

O meu amor é frágil.

O anel que tu não me destes, não era vidro, nem se quebrou. Amor não tinha. Consumou.

O que vivi, agora retrato, reencontro num sertão de rastros. O que senti, pra mim, muito mais que poesia. Coisa viva.

Mas nada cresce de um só lado. Nada vive sem contrapartida. Sem regar a palavra flor, nenhuma semente cresce texto e vira vida.

Nem luz se reflete colorida...

O amor negado é como lua, escondida a dois paços: num movimento é revelado.

Meu coração não pode nessa batida. Não faz música. Na relação entre eu e meu coração, não cabe hipocrisia.

A paz é um laço se fazendo em pedaços, nos gestos de um teatro que revela a saída.

Fingir é uma arte. Pra si mesmo, desastre.

As formas no céu - as nuvens - voltam a ser só imaginações livres.

Melhor sentir o sol no nascer que imaginar a brisa.

Alma inteira e viva.

Definitiva.