domingo, 21 de fevereiro de 2010
Nascer do sol em Caraíva
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O que trama e turva na paisagem é o olhar, quando as cores se dissolvem com a luz.
Quando as nuvens se colorem e anunciam o sol.
Nossas dores dégradés emergem do nosso silêncio – ou de nossas vozes (do espanto).
O que as brumas anunciam quando o mar grita, o que nem se esconde tampouco vem de longe, a própria vida.
Vem da chama. Anuncia o novo todo dia.
(Já o medo é esse estranho mar que agride as margens)
Desponta do céu de Caraíva a despedida, o último dia, derradeiro como tudo.
O horizonte espalha a paisagem e o mar canta sua rítmica canção de eternidade.
A alteridade do momento fixa os sentidos, entre a tola imensidão de pensamentos.
O que ficou inteiro restou das minhas partes. Na intransigência do momento, cada recorte um lapso, cada retalho insurgência de sentir.
A luz explodiu em rasgos e rastros. O céu se desfez em confetes num carnaval de mim.
Sangra em cores todo amanhecer, enquanto minha alma singra o mar que se espanta.
O brilho intenso da morte que o tempo sorrateiro transforma em saudade.
O sol se levanta, o amarelo consome das marolas a dança.
Da beleza única costuro túnica. Recobrirá e dará alento.
O calor do movimento me abraça e se tudo passa eu melhor invento.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Certidão de nascimento
Maleta. Tomar umas cervejas, jogar conversa fora. Centro da cidade. Nossos centros sem saber se deslocam. O futuro é pedra pouco lapidada e torta. A dureza dos rostos secos. Nossas distâncias, solidões e guetos.
Jéferson chegou vendendo bala. Sabe como é. Fugi. Saí de fino. Foi-se, bravo, o menino.
Davi chegou surgindo. Pediu dinheiro. Insistiu tossindo. Pediu comida. Pediu fundo.
Tudo existe e à tarde – já é tão tarde – e tudo triste. Definições em contraste. Prevaricação. Predicação. Amor tardio. Noite.
Devorava o prato. Atropelava comida. Mastigava palavras de alegria. Cantava e sem querer sorria. Falava e comia.
Os opostos. Fome de atenção. Contrapostos. “A vida que podia ter sido e não foi./Tosse, tosse, tosse.”
Tinha seis no máximo. Mentiu que tinha oito sem me olhar no rosto.
Estrelas violetas contra um fundo branco que resiste. A prata convertida em cinzas. Pó. Suor metal. Sal. Sujeira e limbo.
Queria. Menino quer. Eu quis. Deu gosto dar o que pedia.
Nuvem. Chuva ou orvalho – que importa? Só a madrugada compreende que o sol é coisa morta. Cinza de lareira, lar em desarticulação. Fragma. Pedaços que nunca mais se juntam (se é que estiveram presos um dia). Correntes que desatam. Torrentes. Covardias.
Demos o dinheiro. Saiu correndo. Voltou. Pincel, tinta guache e pedindo folha.
Arco menos íris e mais fosco. Cores frias de Osíris. Gelo. Meio dia turvo, meio sem metade. Pouco tácito saudade.
Combinamos de não sujar a mesa. Fez cara de ranzinza. Rasgou folha pra limpar o pincel. Não me deu a mínima.
Um trago ao que nada importa. Bebida em bafo quente. Hálito sentido. Boca. Língua. Trago urgente. Beijo em pessoa-porta.
Ficou transformando bar em céu. Absorvendo aquele momento mínimo. Perguntava se o rio era vermelho ou rosa. Tinha apenas quatro cores. Muita prosa.
Quase. Uma página se consome em linhas que se entortam. Signos. Um zodíaco em itálicos, riscos baixos, rabiscos em caixas-altas onde se ignoram.
Jéferson voltou. Fez estranheza. Davi pintando naquela mesa.
Quem te deu?
Fez que nem ligou.
Deixa eu pintar também?
Você não tem tinta!
Ô Davi, deixa que ele pinta.
Ele não tem pincel!
Vô ganhá um dinheiro ali e compro um.
Onde você comprou?
Quanto custa?
Deixa o chiclete aí. Toma.
Poesia-vício. Falta. Ilusões que se denotam. Nada carregado. Chuva. É chuva indiferente. Seca. Sertão de notas. Silêncio de areia e vidro e espelhos e reflexos quebrados. Azar de sete séculos. Culpa usurpa e sempre nossa.
Demos o dinheiro. Saiu correndo. Voltou. Pincel na mão e pedindo folha.
Sujo. Nu e molhado. Expurgo infecto de machucados. Não se brota. De nota nada de troca denota a falha falsa de fala torta. Calvo e desdentado. Sangue. Choro de recém-nascido, desespero. Dor, revolta.
Por um momento tudo esquecimento. Dois meninos brincando cores.
Nunca. Agora a vida é norma. Chuva. Folha leve que desbota. Tinta alucinógena. Nada que aparenta amanhã me traz de volta.
Jéferson foi vender chicletes. Davi foi fazer dinheiro. Sumiram correndo.
Sereno ou chuva ou meio ou tarde ou dia encarde. Somos feitos paisagem. Tudo resiste lorota.
Ficaram os desenhos. Daqueles que pediam se esquecendo.
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Troca de instantes
Tive um amor daqueles mais intensos e menos esperados. Um amor que aconteceu da melhor forma: um susto daqueles, encontro encantado.
Aconteceu de nos encalacrarmos. Alegria de descobertas e corpos, liberalidade sem remorsos. Meu amor, antes apagado, sorria vivo, escancarado.
Durou o tempo da imensurável intensidade. Foi mais e foi amor, mais que duas partes em metades.
Depois foi sombra de sol de fim de tarde. Entre momentos da vida, entre conflitos de instantes, o amor de relance desviou-se. Sem ser traído, foi trocado.
Em meus apegos, sacudido. Em lapsos de egoísmo, desarmado. Coração um farto fardo no batente. O amor se compreende nos lapsos, consciente nos atos, intermitente.
Num intento de vontade, desvencilhou-se do meu peito, em outro seio aconchegado.
Meu amor se apaixonou por si mesma. Reencontrou-se, recatada, reencantada. E eu, que pouco antes havia, entendi. Não posso nada além do gesto de sorrir.
Quando em vez pensando, tento entender o porquê, nem saudade de tudo que entre nós foi e ainda arde? Se não fixei memória, se daquele lado nada bate...
E eis que vem a mim a melhor lição, o melhor gosto, a melhor história: meu amor, agora, não pode sentir por mim, por nós, por qualquer coisa menos amistosa.
Pois o meu amor há tanto tempo fora, voltou pro seu peito casa, fez morada, arrumou a cama e mata toda a saudade de si mesma, em lua de mel com sua alma. Redescobre siamesa, refaz seus próprios votos de amizade.
A duração desse romance, eu espero, nunca acabe. Eu já me apaixonei por essa pessoa, sei que a concorrência no momento é brava. O que ela redescobre me encantou de cara. Contra isso, não quero nada.
Quando essa paixão se assentar amor, pra fixar no tempo superfície válida, pode essa paixão prescrever outros sentimentos. Uma vez contento, semear no vento.
Quando o espelho refletir a sua especial idade, pode ser que abra a janela, sentir o sol lá fora com muito mais intensidade. Nesse dia, pode ser que outra vida - quem sabe a minha? – por lá passe.
Esse fruto amadurece e prepara o mais doce amor que ainda não chegara. De vontade e de verdade se reveste, pra melhor saboreada.
Meu amor não é ponto de partida e nem chegada. É toda ela: é tudo ou nada.
Doa a dor
Um dia cismei que ia doar os meus livros. Não fazia sentido. A estante ficou feia, cheia de imobilismo.
Meus livros estavam parados. Lidos ou não, acumulando poeira e espaços.
Quando resolvi doá-los, nos atos, quantos fados.
Tinha de livro empoeirado mais de duzentos! Doei alguns pra biblioteca pública lá da praça. Até hoje, tenho essa satisfação e essa graça: volta e meia vejo um livro na estante e reconheço a dobra, conheço aquele amasso de página. Refaz-se um laço.
Os livros estão lá, em trânsito, nunca parados, sujos por empoeirados. Uma alegria!
Outra vez, foi com o Harry Potter. Li todos, vorazmente, livros emprestados pela biblioteca. Cheguei no sexto. Queria ler de qualquer jeito!
Lá só tinham dois. Entrei na fila
Um parêntese pra mudar e ficar no assunto. Comentei isso com minha mãe que não conseguia pegar o livro e tal. O embaraço é esse: mãe é mãe, em qualquer tempo ou idade. Não há maior apreço.
Comprou o livro pra mim. Ganhei o melhor presente do momento. Li rapidamente.
Já tava nessa onda de doar. Fui lá.
Cheguei na biblioteca pública. Aquelas meninas ótimas, recepcionistas: “em que posso ajudar”? Ai eu disse: hoje quem vai ajudar vocês sou eu.
Tirei o livro novinho, só eu tinha lido. Agora a biblioteca ia ter três! As atendentes encheram os olhos d’água. Foi bonito. Satisfação de ação válida.
Outra coisa bacana foi escolher os livros pra doar. Esse tem a cara de fulano, esse de cicrano, esse do Chiquim! Ia nas festas, nos bares, sempre carregado de presente.
Amigo surpreendido, surpresa boa. Mas o melhor é coisa que voa, Bate assas no tempo e depois aparece e de novo avoa.
O melhor do acontecido era o depois. Ali fazia vivo. Ali onde refoi.
Os amigos liam, adoravam, eu acertava a mão. Livros certos foram lidos por pessoas exatas. E gostaram. A melhor repercussão.
Outra feita, outra colheita, doei meu livros pra Paraíba. Um bom amigo, José Paulo, radialista e difusor de cultura. Ele já tinha todo esquema distributivo. lugares, escolas, onde se não.
Mandei livros. Colhi satisfação.
O Zé Paulo fez o favor de encaminhar um email e derreter meu coração. No agradecimento recebido, de aberto peito meigo, nunca agradeci tanto às minas lágrimas, por tornarem aquele momento inteiro
Frases que limparam a estante empoeirada, promovendo meu sossego.
