A violência nos cerca pelas bancas de jornal. Não escapamos dela. No entanto, somos tão alheios, nos colocamos tão distantes, tão importantes, como se a nossa face não estivesse no reflexo e na separação das partes – castas modernas – , onde nos escondemos. Nos chamados lares.
Chego em casa para me esconder. Atrás de barreiras, grades, chaves, eletricidade, uma segurança de barco que não percebe a margem. Flutua confortável, bandeira do cólera hasteada, mas não por amor como em García Márquez. A doença não é uma solução para que o amor se eternizasse. É câncer, disfunção da sociedade.
Nesse dia a segurança me trái, a dois passos da entrada a faca me lembra, a faca me mostra, a faca me força a ver o que as grades me esperam esquecer. Um homem, um menino, um pobre, um pária. Dentro da minha casa. É a violência que se instala pelo sangue e pelo vidro da janela quebrada.
Converso com ele, peço calma, não vou fazer nada. Nunca fiz nada... O que agora me parece assustador é o nó que me cala a alma: ele é de carne e ossos, tem fome e sede e TV em casa. Assiste aos mesmos programas, às mesmas propagandas, às mesmas promessas e barganhas, bancas onde ele não pode apostar. Ele não tem grana. Mas a felicidade que é vendida a ele está na mesma loja do bacana.
Me explica que amanhã é dia das mães, sua mulher grávida, um atropelo de palavras num desespero mudo que agora exala como um cheiro no escuro. Ele mal tem casa, mas se casa e sua esposa, grávida. Mãe tem que ganhar presente, a televisão não pára, o mundo é exigente, seu brilho de ódio nos olhos estanca as lágrimas:
- “Por quê minha mulher não pode ganhar nada, cara?!”
A insensibilidade é que nos mata, quando os números substituem as pessoas e as estatísticas nem se lixam pra questões humanitárias. Ele é gente, tão igual e diferente, nessas tantas direções contrárias. Não perceber as semelhanças é não querer entender as falhas.
domingo, 9 de maio de 2010
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