Poiesis: o agir do homem
enquanto agir-se
(Texto discursado na Academia Mineira de Letras, em 18/05/12, em razão da 10ª Semana de Museus, pelo Museu Nacional da Poesia)
(Texto discursado na Academia Mineira de Letras, em 18/05/12, em razão da 10ª Semana de Museus, pelo Museu Nacional da Poesia)
Falar
de poiesis, da origem da poesia, é falar da origem do próprio
homem. Sem a poesia, simplesmente não poderia haver o homem, tal
qual o conhecemos. A poesia é a projeção do humano e confunde-se,
ainda hoje, com própria definição de arte.
E
isso é fácil de se perceber. Por muitas vezes conclamamos a poesia
presente numa composição musical, num quadro, num retrato ou
fotografia, mas não apenas: há poesia nas linhas arquitetônicas,
no traçado urbano, no orçamento de um país, de um estado, de uma
cidade, de uma família. Há poesia em toda parte.
Aristóteles,
em seu estudo chamado Poética, compara poiesis (fabricação;
atividade: o fazer humano) à tecnè (arte no sentido de engenho,
destreza) e conclui que não existe tecnè sem poiesis. A poesia como
extensão do humano, como projeção criadora e potencializadora do
ser, é todo e qualquer fazer humano.
Dito
isso, é importante ressaltar um aspecto do entendimento do termo
pelos antigos gregos. Poiesis seria o princípio pelo qual se dava a
criação. Não se separava o trabalho da poesia porque cada criação
humana, seja ela uma cadeira, uma porta, um espelho, um quadro ou as
curvas arquitetônicas de um edifício, o traçado de uma cidade, a
composição de uma praça, todas essas criações são extensões
criativas do ser humano, são visões do modus vivendi e,
também, de como ele pode e deveria ser. É como o poeta quando faz
um verso que toca profundamente a audiência: o que toca é aquilo
que tem de humano, de universal, é a extensão do sensível que há
em nós, em todos nós seres humanos, que o poeta toca e, por vezes,
faz até doer. Não obstante são assim tanto uma composição
filarmônica, quanto, para a história da humanidade, o trem de
ferro, o automóvel, a nave espacial: suas potencialidades e suas
extensões multiplicadoras do futuro da humanidade, são pura
poiesis.
Em
um dado momento da história da humanidade aconteceu a dissociação
entre tecnè e poieis. A partir de Descartes, de Kant, entre outros
pensadores, a técnica passou a ser vista como algo individual,
separado do todo. A tecnologia divorciou-se da poética. Assim, os
usos também passaram a ser vistos como algo particular. Em algum
momento, perdeu-se a dimensão do universal e, hoje, tornamo-nos
consumistas, mas de produtos sem alma coletiva, sem ligações
cognitivas, sem o lastro poético. Há muito mais poesia no
transporte público do que no carro particular. Muito mais poiesis
num puxadinho do que num conjunto de apartamentos idênticos e
impessoais.
No
entanto, ainda trazemos resquícios desse tempo sem a ruptura do
homem com a poesia. O engenho humano, poiesis por definição e
excelência, dá nome à profissão que talvez menos nos remeta à
poesia: as Engenharias. No entanto, quando um engenheiro faz cálculos
para uma represa, um prédio, um planejamento urbano, fios e tensões
elétricas e sua difusão, ele está projetando uma forma de viver,
uma perspectiva de futuro para ser compartilhada. Ele não pode
preocupar-se ou ocupar-se apenas de suas convicções: estas estão
ali, mas diluídas num conhecimento e numa perspectiva de uso que
tange o universal e suas conseqüências. Um prédio, com o perdão
do trocadilho infame, é poesia concreta, a que tudo nos remete:
formas de viver, separação social, solidão, contraposição à
natureza, o dramático que existe entre a especulação imobiliária
e o desejo de ter um quintal... o Engenho humano, a tecnè
aristotélica, é pura Poiesis, se for, desta feita, sensível. Caso
for insensível, ela gerará a poesia, como fonte de inspiração
indissociável desta.
Mas
nem sempre foi assim e não faz tanto tempo. Por exemplo, os
primeiros físicos da história ocidental eram poetas. Pra ser mais
exato, não havia essa diferenciação entre ser poeta, físico,
matemático ou filósofo, pois em todas essas atribuições havia a
dimensão do sagrado. Pois eles sabiam que a dissociação entre sua
arte, seu fazer e o universal, o coletivo, o modo de vida, enfim, o
ser humano enquanto entendimento comum de todos nós, mamíferos,
bípedes, com nossa estranha memória e sentimentos em relação à
natureza e aos outros seres semelhantes, é esvaziada de sentido.
Como eu disse anteriormente, não havia tecnè sem poiesis. Não
havia diferença entre o saber científico e a intuição poética.
A
própria poesia é fundadora de nações. Como nos diz Heidegger, a
poesia é a linguagem primogênita de um povo. Ela não trabalha o
léxico: o poeta cria o léxico, como nos lembra Décio Pignatari.
Sem a dimensão poética, o ser humano não teria conseguido se
expressar coerentemente a ponto de se comunicar. As primeiras formas
de comunicação ritualísticas eram poemas onde aqueles agrupamentos
humanos se traduziam. É na expressão poética do mito que emerge a
identidade coletiva. Para dar mais clareza a essas afirmações,
pensemos em Dante Alighieri que, com seus escritos, torna-se (ele ou
seus poemas) o pai criador do Italiano e, uma vez criada a língua
compartilhada por muitos, inaugura-se também um povo, uma
identidade, signos compartilhados. Camões também é um exemplo
claro e tão caro à identidade portuguesa moderna: os Lusíadas
fazem do poeta o maestro da língua. E não há um português que não
remeta à visão mítica presente na criação de Camões no seu
entendimento identitário enquanto português e enquanto pertencente
a uma nação inspirada naquela criação poética.
Assistimos
ao longo do tempo, a individualização da poesia e de seus temas.
Ainda assim, hoje, quando um poeta canta sua dor, ele sabe que aquela
dor só se tornará poema se tocar a semelhante dor universal
compartilhada por todos os seres humanos. É na dimensão universal
onde se estabelece o sensível e, hoje, as formulações estéticas
todas – a arte formal, por assim dizer – correm atrás de signos
compartilhados, nesse mundo pós-moderno, onde a dissociação da
poiesis com a existência humana tornou-se tão premente que somos
todos fragmentários, uma colcha de retalhos onde tentamos, nós, os
retalhos, formarmos um tecido coerente. Isso ocorre porque, na
maioria das vezes, agimos e/ou pensamos sem poesia. Não damos às
coisa que fazemos o seu sentido original: a comunhão entre todos os
seres humanos. Esquecemos a nossa interligação, a conexão entre
todos os seres e, sobretudo, a conexão entre nós mesmos, reflexos
que somos do absoluto. Esquecemos que é aí onde mora a poesia,
muito longe do cérebro, do racional, tão próxima do coração,
esse órgão-signo da sensibilidade. Nesse sentido posto, quando
fazemos as coisas pensando nos outros, num todo maior do que nós e
que nos abarca, pensando nas conseqüências para o resto da
humanidade, não somos religiosos apenas, se esse é seu entendimento
de religião: somos todos poetas.
Portanto,
minha sugestão aqui, nesse dia, é que voltemos um pouco e
restabeleçamos a poiesis em nossa caminhada humana pelo tempo. A
poesia é o religare entre a solidão e a humanidade, entre a
separação e a comunhão, entre o técnico restrito e o universal.
Entre a tristeza e a alegria. Entre o silêncio e som. Entre o ser e
o não ser.

1 comentário:
Parabéns Serginho, o texto ficou sensacional!!!
Reestabeleçamos nossa poiesis nos toques de primeira, enfiadas em profundidade, chutes de longe e desvios sutis, nos gols feitos e perdidos, dribles e bolas roubadas.
E cheguemos ao pleno ser na resenha pós-pelada.
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