quinta-feira, 17 de maio de 2012


Poiesis: o agir do homem enquanto agir-se
(Texto discursado na Academia Mineira de Letras, em 18/05/12, em razão da 10ª Semana de Museus, pelo Museu Nacional da Poesia)



Falar de poiesis, da origem da poesia, é falar da origem do próprio homem. Sem a poesia, simplesmente não poderia haver o homem, tal qual o conhecemos. A poesia é a projeção do humano e confunde-se, ainda hoje, com própria definição de arte.
E isso é fácil de se perceber. Por muitas vezes conclamamos a poesia presente numa composição musical, num quadro, num retrato ou fotografia, mas não apenas: há poesia nas linhas arquitetônicas, no traçado urbano, no orçamento de um país, de um estado, de uma cidade, de uma família. Há poesia em toda parte.
Aristóteles, em seu estudo chamado Poética, compara poiesis (fabricação; atividade: o fazer humano) à tecnè (arte no sentido de engenho, destreza) e conclui que não existe tecnè sem poiesis. A poesia como extensão do humano, como projeção criadora e potencializadora do ser, é todo e qualquer fazer humano.
Dito isso, é importante ressaltar um aspecto do entendimento do termo pelos antigos gregos. Poiesis seria o princípio pelo qual se dava a criação. Não se separava o trabalho da poesia porque cada criação humana, seja ela uma cadeira, uma porta, um espelho, um quadro ou as curvas arquitetônicas de um edifício, o traçado de uma cidade, a composição de uma praça, todas essas criações são extensões criativas do ser humano, são visões do modus vivendi e, também, de como ele pode e deveria ser. É como o poeta quando faz um verso que toca profundamente a audiência: o que toca é aquilo que tem de humano, de universal, é a extensão do sensível que há em nós, em todos nós seres humanos, que o poeta toca e, por vezes, faz até doer. Não obstante são assim tanto uma composição filarmônica, quanto, para a história da humanidade, o trem de ferro, o automóvel, a nave espacial: suas potencialidades e suas extensões multiplicadoras do futuro da humanidade, são pura poiesis.
Em um dado momento da história da humanidade aconteceu a dissociação entre tecnè e poieis. A partir de Descartes, de Kant, entre outros pensadores, a técnica passou a ser vista como algo individual, separado do todo. A tecnologia divorciou-se da poética. Assim, os usos também passaram a ser vistos como algo particular. Em algum momento, perdeu-se a dimensão do universal e, hoje, tornamo-nos consumistas, mas de produtos sem alma coletiva, sem ligações cognitivas, sem o lastro poético. Há muito mais poesia no transporte público do que no carro particular. Muito mais poiesis num puxadinho do que num conjunto de apartamentos idênticos e impessoais.
No entanto, ainda trazemos resquícios desse tempo sem a ruptura do homem com a poesia. O engenho humano, poiesis por definição e excelência, dá nome à profissão que talvez menos nos remeta à poesia: as Engenharias. No entanto, quando um engenheiro faz cálculos para uma represa, um prédio, um planejamento urbano, fios e tensões elétricas e sua difusão, ele está projetando uma forma de viver, uma perspectiva de futuro para ser compartilhada. Ele não pode preocupar-se ou ocupar-se apenas de suas convicções: estas estão ali, mas diluídas num conhecimento e numa perspectiva de uso que tange o universal e suas conseqüências. Um prédio, com o perdão do trocadilho infame, é poesia concreta, a que tudo nos remete: formas de viver, separação social, solidão, contraposição à natureza, o dramático que existe entre a especulação imobiliária e o desejo de ter um quintal... o Engenho humano, a tecnè aristotélica, é pura Poiesis, se for, desta feita, sensível. Caso for insensível, ela gerará a poesia, como fonte de inspiração indissociável desta.
Mas nem sempre foi assim e não faz tanto tempo. Por exemplo, os primeiros físicos da história ocidental eram poetas. Pra ser mais exato, não havia essa diferenciação entre ser poeta, físico, matemático ou filósofo, pois em todas essas atribuições havia a dimensão do sagrado. Pois eles sabiam que a dissociação entre sua arte, seu fazer e o universal, o coletivo, o modo de vida, enfim, o ser humano enquanto entendimento comum de todos nós, mamíferos, bípedes, com nossa estranha memória e sentimentos em relação à natureza e aos outros seres semelhantes, é esvaziada de sentido. Como eu disse anteriormente, não havia tecnè sem poiesis. Não havia diferença entre o saber científico e a intuição poética.
A própria poesia é fundadora de nações. Como nos diz Heidegger, a poesia é a linguagem primogênita de um povo. Ela não trabalha o léxico: o poeta cria o léxico, como nos lembra Décio Pignatari. Sem a dimensão poética, o ser humano não teria conseguido se expressar coerentemente a ponto de se comunicar. As primeiras formas de comunicação ritualísticas eram poemas onde aqueles agrupamentos humanos se traduziam. É na expressão poética do mito que emerge a identidade coletiva. Para dar mais clareza a essas afirmações, pensemos em Dante Alighieri que, com seus escritos, torna-se (ele ou seus poemas) o pai criador do Italiano e, uma vez criada a língua compartilhada por muitos, inaugura-se também um povo, uma identidade, signos compartilhados. Camões também é um exemplo claro e tão caro à identidade portuguesa moderna: os Lusíadas fazem do poeta o maestro da língua. E não há um português que não remeta à visão mítica presente na criação de Camões no seu entendimento identitário enquanto português e enquanto pertencente a uma nação inspirada naquela criação poética.
Assistimos ao longo do tempo, a individualização da poesia e de seus temas. Ainda assim, hoje, quando um poeta canta sua dor, ele sabe que aquela dor só se tornará poema se tocar a semelhante dor universal compartilhada por todos os seres humanos. É na dimensão universal onde se estabelece o sensível e, hoje, as formulações estéticas todas – a arte formal, por assim dizer – correm atrás de signos compartilhados, nesse mundo pós-moderno, onde a dissociação da poiesis com a existência humana tornou-se tão premente que somos todos fragmentários, uma colcha de retalhos onde tentamos, nós, os retalhos, formarmos um tecido coerente. Isso ocorre porque, na maioria das vezes, agimos e/ou pensamos sem poesia. Não damos às coisa que fazemos o seu sentido original: a comunhão entre todos os seres humanos. Esquecemos a nossa interligação, a conexão entre todos os seres e, sobretudo, a conexão entre nós mesmos, reflexos que somos do absoluto. Esquecemos que é aí onde mora a poesia, muito longe do cérebro, do racional, tão próxima do coração, esse órgão-signo da sensibilidade. Nesse sentido posto, quando fazemos as coisas pensando nos outros, num todo maior do que nós e que nos abarca, pensando nas conseqüências para o resto da humanidade, não somos religiosos apenas, se esse é seu entendimento de religião: somos todos poetas.
Portanto, minha sugestão aqui, nesse dia, é que voltemos um pouco e restabeleçamos a poiesis em nossa caminhada humana pelo tempo. A poesia é o religare entre a solidão e a humanidade, entre a separação e a comunhão, entre o técnico restrito e o universal. Entre a tristeza e a alegria. Entre o silêncio e som. Entre o ser e o não ser.

1 comentário:

Unknown disse...

Parabéns Serginho, o texto ficou sensacional!!!

Reestabeleçamos nossa poiesis nos toques de primeira, enfiadas em profundidade, chutes de longe e desvios sutis, nos gols feitos e perdidos, dribles e bolas roubadas.
E cheguemos ao pleno ser na resenha pós-pelada.