Um dia cismei que ia doar os meus livros. Não fazia sentido. A estante ficou feia, cheia de imobilismo.
Meus livros estavam parados. Lidos ou não, acumulando poeira e espaços.
Quando resolvi doá-los, nos atos, quantos fados.
Tinha de livro empoeirado mais de duzentos! Doei alguns pra biblioteca pública lá da praça. Até hoje, tenho essa satisfação e essa graça: volta e meia vejo um livro na estante e reconheço a dobra, conheço aquele amasso de página. Refaz-se um laço.
Os livros estão lá, em trânsito, nunca parados, sujos por empoeirados. Uma alegria!
Outra vez, foi com o Harry Potter. Li todos, vorazmente, livros emprestados pela biblioteca. Cheguei no sexto. Queria ler de qualquer jeito!
Lá só tinham dois. Entrei na fila
Um parêntese pra mudar e ficar no assunto. Comentei isso com minha mãe que não conseguia pegar o livro e tal. O embaraço é esse: mãe é mãe, em qualquer tempo ou idade. Não há maior apreço.
Comprou o livro pra mim. Ganhei o melhor presente do momento. Li rapidamente.
Já tava nessa onda de doar. Fui lá.
Cheguei na biblioteca pública. Aquelas meninas ótimas, recepcionistas: “em que posso ajudar”? Ai eu disse: hoje quem vai ajudar vocês sou eu.
Tirei o livro novinho, só eu tinha lido. Agora a biblioteca ia ter três! As atendentes encheram os olhos d’água. Foi bonito. Satisfação de ação válida.
Outra coisa bacana foi escolher os livros pra doar. Esse tem a cara de fulano, esse de cicrano, esse do Chiquim! Ia nas festas, nos bares, sempre carregado de presente.
Amigo surpreendido, surpresa boa. Mas o melhor é coisa que voa, Bate assas no tempo e depois aparece e de novo avoa.
O melhor do acontecido era o depois. Ali fazia vivo. Ali onde refoi.
Os amigos liam, adoravam, eu acertava a mão. Livros certos foram lidos por pessoas exatas. E gostaram. A melhor repercussão.
Outra feita, outra colheita, doei meu livros pra Paraíba. Um bom amigo, José Paulo, radialista e difusor de cultura. Ele já tinha todo esquema distributivo. lugares, escolas, onde se não.
Mandei livros. Colhi satisfação.
O Zé Paulo fez o favor de encaminhar um email e derreter meu coração. No agradecimento recebido, de aberto peito meigo, nunca agradeci tanto às minas lágrimas, por tornarem aquele momento inteiro
Frases que limparam a estante empoeirada, promovendo meu sossego.

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