Texto escrito devido à seguinte crítica, propagada pelas redes sociais: http://www.cartacapital.com.br/cultura/critico-britanico-detona-paulo-coelho-apos-provocacao-a-ulysses-de-james-joyce/
Um
problema muito sério, um verdadeiro drama psicológico-patriótico
do nosso povo é esse complexo de vira-lata que assola a todos nós,
brasileiros. Quem é o crítico britânico? Qual a importância dele
para a literatura mundial? Por que a opinião dele é levada e
consideração? Eu mesmo respondo: só porque detona um escritor
brasileiro. Ele ganha muita credibilidade...
Paulo Coelho é um escritor reconhecido
internacionalmente, entre outras instituições, a Academia de Letras
da França (onde ganhou até prêmio cobiçado por diversos autores
em todo o mundo). Um best-seller no Brasil, um país onde a média de
leitura é de 1 livro por ano e o hábito de ler, pouco praticado.
Autor de muitos livros, todos muito lidos.
Li poucos livros dele e só os mais
antigos. Lembro-me de ter lido "O Alquimista" na
adolescência e de ter gostado imensamente. Foi um livro de leitura
fácil, história simples e envolvente e que, se não é uma obra
prima da literatura mundial, tal como Joyce ou Guimarães Rosa, foi
um livro e um autor que contribuíram para que eu tomasse gosto pela
leitura e pela literatura - e hoje sou um leitor voraz e me arrisco
na arte da poesia.
Quem diz que o Paulo Coelho nasceu pra
pano de chão, não deve saber bem a diferença do que é um pano de
prato. Quantos livros esse povo leu para formatar essa comparação?
E quantos críticos e críticas literárias eles conhecem para
corroborar assim, de pronto, o primeiro crítico que ganhou destaque
detonando um escritor internacionalmente famoso?
Paulo Coelho
tem razão em dizer que ao desfazerem dele desfazem também de seus
leitores. É verdade, com um detalhe: ele tem milhares de leitores.
Despreza-se gente demais, não?
Quanto ao Ulisses, do Joyce, acho
chatíssimo e nunca consegui ler. Muito difícil pra mim ainda. Por
isso, concordo com a crítica do Coelho em parte: é praticamente um
tributo ao estilo, consagrado pelo próprio Joyce. Mas isso é só
minha opinião, tal qual à do Paulo Coelho. Frente à genialidade da
obra do Joyce, opiniões sobre esse ou aquele aspecto de sua obra ou
livro seu, significam muito pouco ou quase nada. Paulo Coelho sabe
disso, só emitiu um ponto de vista.
Há quem critique o Joyce, ainda, em
outro aspecto da sua obra (e da sua grandeza): depois de consagrado o
estilo, todo romancista do século XX foi assombrado por Ulisses,
todos foram comparados à Joyce, todos se preocuparam e muitos se
limitaram só para "parecer" Joyce...
Criticam muito o Coelho na medida
inversa à qual elogiam o Joyce: dizem que um é simplório e, o
outro, sofisticado. Na minha opinião, não é só porque é de
leitura agradável e de temas mais superficiais (embora eu não
considere assim) que automaticamente se torna simplório - olha aí o
Dan Brown enchendo as burras de dinheiro só porque criou um estilo
fácil e dinâmico, que se repete em todos os seus livros. E isso não
é demérito nenhum, pelo contrário: cada escritor com sua
importância, seu lugar e relevância na história e no universo da
literatura.
Livros foram feitos para serem lidos,
não idolatrados. Pra isso, para que se consiga ler os livros
clássicos da literatura, com tudo o que os envolve além do
conteúdo, como estilo, autor, momento histórico da obra e todos os
et céteras, há que se tomar gosto, preciso é o hábito da leitura,
seu deleite. É imperativo ter prazer. O livro não pode ir além do
que pode oferecer o leitor, com riscos enormes para o futuro do
leitor – ou sua destruição.
Se eu quisesse incentivar uma criança
ou um adolescente à prática da leitura, indicaria a eles,
principalmente se já dominados pela televisão, onde todas as
imagens já lhe são dadas e o pensar é desestimulado, livros de
maior simplicidade, tanto temática quanto estilística. Indicaria
livros fáceis de ler. Indicaria Paulo Coelho, com seus livros
simples, mas nunca simplórios e seus temas menos complexos, mas
nunca superficiais.
Desfazer do Paulo Coelho e de sua
importância para a literatura brasileira, com os argumentos
apresentados, é o mesmo que dizer que só porque tivemos Shakespeare
não podemos ter um Bernard Cowell, um escritor inglês, de romances
históricos de temas fáceis, livros populares e deliciosos. Ou que,
só porque tivemos um Guimarães Rosa, não podemos perceber a
importância de um Jorge Amado. Ou só porque tivemos poetas
concretistas geniais, eu não pudesse existir, tentando viver com
minha poesia simples.

1 comentário:
E os que elogiam Joyce para atacar Paulo Coelho conhecem a biografia do primeiro? Eles tem certeza que o irlandês ficaria do lado deles nesse esnobismo todo?
Bah!
Abraços,
Aldrin
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