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Vovô Bina veio do Líbano, fugindo da
guerra, passando novinha pela França e chegando, ainda adolescente,
ao Brasil. Foi morar em Cláudio, no interior de Minas, perto de
Divinópolis, onde até hoje existe a Fundição Libanesa, muitos
primos e parentes pela cidade e região. Lá nasceu tia Helena, irmã
de Tesbina que, claro, sempre foi bem mais nova que vovó.
Pois bem, conto-lhes isso tudo pra
contar, na verdade, uma outra coisa. Tinha eu 18 anos e estava indo
passar a Semana Santa em Cláudio, 40 dias depois do carnaval que
também passei por lá. Fui, antes de pegar o ônibus na rodoviária,
almoçar com minha vó e tia Helena na casa de Dona Bina.
Comida
maravilhosa, conversa muito boa, tia Helena pega na minha mão e
pergunta: “Você foi pra Cláudio no carnaval e agora tá voltando
na semana santa”? Vovó já me dá uma encarada daquelas que nem se
precisa dizer a pergunta.
Fingi de desentendido. Respondi que
sim, que ia muito pra lá, que gostava, tinha amigos, falei dos
primos e dos parentes, et cétera. Adiantou nada. Tia Helena já
mandou, assim que teve oportunidade: “arrumou namorada lá”?
Eu ri, disse que não, brinquei um
“quem sabe”? Hum, pra quê!
Desbarataram a dizer pra eu tomar
cuidado, que isso não era brincadeira, que era coisa séria e que
era pra eu tomar cuidado com as meninas de Cláudio.
Opa! Sai
do meu torpor de encantamento de ver aquelas duas naquele carinho e
preocupação todo, aquela felicidade de casa de vó, e mandei de
primeira, pra minha tia-avó:
- Por quê, tia Helena? Que eu saiba,
vocês duas foram meninas de Cláudio, uai.
Duas senhorinhas
de estupefactas passaram a vermelhas, dando risinhos nervosos, sem
saber o que fazer. Vovó levantou, pegou um prato, tia Helena
rapidamente a imitou, limparam a mesa, foram pra cozinha e voltaram
com um doce de leite e queijo e café – e outro assunto.
A saudade é um doce de leite com
queijo e café e duas meninas de Cláudio...

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